VENEZA — “Dau”, de Ilya Khrzhanovsky, foi exibido no Festival de Veneza como a conclusão de um projeto iniciado há duas décadas para recriar a vida na União Soviética durante o auge do stalinismo. O longa acompanha o físico Lev Landau, conhecido como Dau, e sua relação com o programa de pesquisas bélicas soviético.
Para realizar o projeto, Khrzhanovsky construiu na Ucrânia um gigantesco estúdio que reproduzia um instituto de pesquisa científica soviético. O local era inspirado no ambiente onde Landau teria morado e trabalhado. Centenas de pessoas viveram ali por mais de um ano e foram filmadas sem seguir um roteiro definido.
Alimentos e produtos industrializados usados no set eram réplicas. Os participantes não podiam deixar o estúdio e deveriam conduzir suas vidas normalmente, sob a regra de fingir que estavam na União Soviética de meados do século 20.
A trajetória de Landau
O filme, com mais de três horas de duração, começa na juventude de Landau, apresentado como um cientista brilhante que valorizava a liberdade. O governo de Stálin, interessado em talentos capazes de fortalecer militarmente a União Soviética, tenta convencê-lo a colaborar.
Landau inicialmente recusa, por considerar moralmente indefensável usar seu talento para destruir o que havia de humano. A desobediência às orientações oficiais, porém, poderia resultar em prisão, tortura e morte. O físico acaba aceitando participar do programa de pesquisas bélicas, contribuindo para o desenvolvimento do poderio militar soviético.
O set, as atuações e a atmosfera procuram transmitir a experiência de viver sob um regime autoritário. A opção do diretor por deixar as falas surgirem organicamente, sem um roteiro rígido, produz problemas de fluência em alguns momentos. A longa duração também pode dificultar a atenção do espectador.
“Dau” é o primeiro de vários longas do projeto a tratar diretamente da vida de Landau no instituto com base em um roteiro mais preciso. Em 2020, Khrzhanovsky havia concluído “Dau. Natasha”, exibido no Festival de Berlim. A história acompanha uma garçonete envolvida em um romance proibido com um estrangeiro e punida por isso.
A pandemia prejudicou o lançamento de novos filmes em salas, enquanto outros títulos foram disponibilizados em um site específico do projeto. Filmagens adicionais foram feitas depois, em outras locações, até a conclusão do longa exibido no Lido.
Antes da estreia, o Ministério da Cultura da Ucrânia se opôs à inclusão do filme na disputa de Veneza porque o diretor nasceu na Rússia e a obra aborda temas russos. Khrzhanovsky, que tem cidadania alemã, britânica e israelense, declarou ser contrário à guerra iniciada por Vladimir Putin e afirmou que o filme condena autoritarismos, inclusive o da Rússia atual.
Na mesma competição, Stéphane Brizé apresentou “Un Bon Petit Soldat”, sobre o ambiente corporativo e uma diretora de recursos humanos pressionada pelo presidente-executivo da empresa. O elenco inclui Alba Rohrwacher e Vincent Lindon.






