A companhia Dos à Deux estreia uma nova fase de sua pesquisa cênica com “Confuzo (Está Escurecendo Dentro de Mim)”, espetáculo que utiliza, pela primeira vez em seu trabalho, a palavra como elemento central do palco. A montagem acompanha o Homem-Árvore, interpretado por André Curti, diante de uma sociedade que rejeita sua existência.
Na peça, o personagem tenta fincar raízes em um solo que não o aceita. Em determinados momentos, aparece nu ou com um sobretudo preto e equilibra sobre a cabeça um tronco de quatro quilos. Seu corpo e sua natureza o transformam em réu. A personagem defende que dogmas religiosos e leis restringem a liberdade individual e afirma: “Não é possível ser estrangeiro em meu próprio planeta”.
Em contraponto, o Homem-Luz, vivido por Artur Luanda Ribeiro, pedala uma bicicleta-geringonça que produz a energia elétrica usada no desenho de luz. Varas côncavas equipadas com LEDs vermelhos se movimentam pelo palco e formam uma estrutura de vigilância sobre o personagem, cujos galhos, sombras e brotos são tratados como desvios.
O texto adota uma construção poética e articula uma crítica à ganância corporativa ligada à destruição do clima, à intolerância contra a liberdade da sexualidade e à xenofobia alimentada por interesses políticos. O título com “z” também faz uma referência indireta ao ensaio “S/Z”, de Roland Barthes, associado à ideia de castração social.
Trajetória da companhia
Fundada em 1998, em Paris, a Dos à Deux está sediada no Rio de Janeiro desde 2015. A companhia desenvolve uma linguagem ligada ao teatro físico e imagético, com uso de gestos estilizados, iluminação difusa, objetos, máscaras e bonecos como extensões do corpo.
A montagem dialoga com o trabalho do diretor polonês Leszek Mądzik (1945-2025), especialmente na relação entre luz e sombra e na integração entre som, iluminação e coreografia. Elementos de trabalhos anteriores também reaparecem, como a solidão e a distopia de “Ausência”, de 2012, a fragmentação corporal de “Gritos”, de 2016, e a atmosfera cerimonial de “Enquanto Você Voava, eu Criava Raízes”, de 2022.








