A identificação de uma mutação no gene BRCA2 permitiu que a endocrinologista Mari Cançado, 58 anos, tivesse acesso a uma terapia-alvo contra o câncer de ovário. Após cirurgia, quimioterapia e uma recidiva, ela está em remissão e afirma que a doença permanece controlada com medicação oral.
O diagnóstico de câncer seroso de alto grau, em estágio 4B, foi feito há 10 anos, depois que a doença atingiu o fígado, o peritônio e o diafragma. Na época, Mari queria encontrar um tratamento que lhe permitisse acompanhar o crescimento dos filhos. “Queria viver! A vida é nosso bem maior”, conta.
Sintomas e diagnóstico
O primeiro sinal foi um linfonodo aumentado na virilha direita, inicialmente associado a uma infecção urinária. Os exames feitos naquele momento não mostraram alterações, segundo Mari. Depois, vieram má digestão e cansaço acima do habitual.
Ao longo de cerca de oito meses, ela também teve mudanças no funcionamento do intestino, gases, perda de força muscular e dor lombar ao se deitar de barriga para cima. Um episódio de herpes-zóster levou à continuidade da investigação. A confirmação de malignidade ocorreu após uma biópsia do linfonodo.
Segundo Jacqueline Menezes, cirurgiã oncológica e diretora nacional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), os sintomas do câncer de ovário podem ser confundidos com problemas digestivos. Não existe método de rastreamento comprovadamente eficaz para reduzir a mortalidade entre mulheres sem sintomas e sem risco aumentado.
O ultrassom transvaginal pode ser usado na investigação de manifestações suspeitas, mas não substitui a avaliação médica nem é um exame de rotina capaz de descartar a doença. Conforme os achados, a apuração pode incluir tomografias, exames de sangue e outros procedimentos.
Um levantamento da SBCO, com dados do Registro Hospitalar de Câncer de 2023, reuniu 855 registros de câncer de ovário com informação sobre o estágio. Desse total, 588, ou 68,8%, correspondiam às fases 3 ou 4. O levantamento considera os atendimentos dos hospitais participantes e não representa todos os diagnósticos no Brasil.
Tratamento e investigação familiar
A investigação genética identificou a mutação no BRCA2, embora Mari não conhecesse casos de câncer de mama ou de ovário na família. A alteração abriu a possibilidade de uso de terapia-alvo, adotada desde 2018. Ela utiliza uma medicação oral há oito anos.
Jacqueline explica que alterações nos genes BRCA podem estar apenas no tumor ou ser hereditárias. Quando herdadas, elas também permitem avaliar familiares. Um dos filhos de Mari e uma sobrinha fizeram testes e apresentaram a mesma mutação. Atualmente, os dois são acompanhados por um oncogeneticista.
A médica afirma que o aconselhamento genético deve ser oferecido a todas as pacientes com câncer epitelial de ovário, independentemente da idade ou do histórico familiar. Ter a alteração não significa necessariamente desenvolver câncer, mas o resultado permite planejar cuidados individualizados.
Entre os sinais que merecem atenção estão inchaço persistente ou aumento do volume da barriga, dor abdominal ou pélvica, sensação de estômago cheio após comer pouco, perda de apetite, má digestão, alterações intestinais e necessidade de urinar com maior frequência.
Em tratamento e acompanhamento, Mari recomenda atenção às mudanças do corpo e busca por atendimento quando os sintomas persistirem. “Se necessário, procure outra opinião”, alerta.








