RESERVA NACIONAL TAMBOPATA — Um projeto de conservação conseguiu que 25 filhotes de araracanga resgatados entre 2017 e 2019 fossem criados por casais selvagens. A estratégia busca evitar a morte dos filhotes mais novos e ensiná-los a voar, se alimentar e viver em bandos na floresta.
A cientista peruana Gabriela Vigo-Trauco coordena o trabalho. Ela estuda as aves há mais de duas décadas e identificou que quase todos os terceiros e quartos filhotes de ninhos com vários ovos não sobrevivem. Entre os segundos filhotes, cerca de 25% enfrentam o mesmo destino.
O caso de Parker
Parker foi retirado do ninho em novembro de 2018, quando ainda não tinha aberto os olhos. Sem penas e abaixo do peso, era o quarto filhote de uma ninhada com quatro aves. A equipe o alimentou na estação de campo durante três semanas, em intervalos de duas horas.
Enquanto isso, os pesquisadores procuraram um ninho adequado para a adoção. Parker foi colocado em outro ninho em 22 de dezembro. A fêmea adotiva, Tambo, passou a cuidar dele imediatamente. Meses depois, o filhote deixou o ninho.
A equipe observou Parker novamente em setembro de 2019. Ele voava ao lado dos pais adotivos e do irmão. Outros três filhotes também foram adotados, mas não conseguiram sair do ninho: um morreu atingido por um raio, outro foi morto por um predador e o terceiro ficou doente.
Por que os filhotes mais novos são abandonados
As araracangas podem pôr até quatro ovos por estação, mas normalmente apenas um ou dois filhotes deixam o ninho. Vigo-Trauco afirma que os pais, especialmente a mãe, abandonam os mais jovens.
A pesquisadora acredita que a diferença de apenas quatro ou cinco dias entre as eclosões dificulta os cuidados. Filhotes em estágios distintos precisam de alimentação e temperaturas diferentes. Se os pais tentarem alimentar todos, existe o risco de nenhum sobreviver.
A caça ilegal e a extração de madeira reduziram populações da espécie. Uma subespécie chegou perto da extinção no México e na América Central. Para Vigo-Trauco, a perda de cada filhote se torna mais relevante em locais onde a conservação depende do combate a invasores e madeireiros.
Limites da técnica
A criação manual não resolve todos os problemas. As aves podem levar de 45 a 90 dias para voar e, quando criadas em cativeiro, têm baixa sobrevivência. Também podem ter dificuldade para encontrar alimento, reconhecer predadores e integrar bandos.
A adoção na floresta exige localizar rapidamente um ninho com um filhote em perigo e um casal com espaço para receber uma ave de idade semelhante. A equipe que trabalhou em Tambopata tinha 20 pessoas, com salários, hospedagem e equipamentos financiados durante um experimento de três anos.
Rony García-Anleu, diretor de pesquisas biológicas da Sociedade de Conservação da Vida Selvagem da Guatemala e coautor do estudo sobre a adoção, afirma que o procedimento precisa ocorrer no momento adequado. Na Guatemala, a última introdução de uma ave em um ninho adotivo feita por sua equipe ocorreu em 2019.
Mudança no método
Desde 2020, Vigo-Trauco testa retirar a etapa de alimentação manual. A proposta é transferir os filhotes de um ninho para outro logo após o nascimento. O método exige monitoramento maior, mas reduz os cuidados intensivos e o custo.
No segundo ano do novo processo, dois ninhos que tinham dois filhotes com grande diferença de idade passaram por trocas. A intenção era permitir que cada casal criasse aves em fases de desenvolvimento mais próximas.
A técnica também passou a orientar trabalhos com outras espécies de aves da Argentina à América Central. Para Vigo-Trauco, os resultados obtidos no Peru podem contribuir para iniciativas de adoção em regiões com menos recursos.








