O corte das emissões de metano passou a ser tratado como uma obrigação diante da possibilidade de o aquecimento global ultrapassar temporariamente o limite de 1,5°C previsto no Acordo de Paris. Em agosto, o aquecimento chegou a 1,65°C, o maior nível registrado para o mês.
O termo overshoot descreve esse período de aquecimento acima de 1,5°C. Com as metas atuais dos países, a projeção é de que o planeta termine o século 1,8°C mais quente. Considerando o nível atual de emissões, o aumento poderia chegar a 2,8°C.
O climatologista Carlos Nobre afirmou que a passagem de 2°C pode levar a pontos de não retorno, incluindo a savanização da Amazônia. O último relatório do Pnuma aponta que a redução posterior da temperatura não reverteria danos em florestas tropicais, recifes de corais, montanhas polares e outros sistemas vulneráveis.
Metano tem efeito mais intenso e duração menor
O metano responde por um terço do aumento global da temperatura e é considerado um superpoluente climático de vida curta. O dióxido de carbono, principal responsável pelo aquecimento, responde por metade desse aumento.
Henrique Bezerra, diretor para a América Latina da Global Methane Hub, explicou que uma molécula de metano aquece 86 vezes mais do que uma molécula de dióxido de carbono em 20 anos. Em uma avaliação de 100 anos, a diferença cai para 26 a 29 vezes.
Cerca de 60% das emissões atuais de metano são causadas por atividades humanas. A agropecuária responde por 40% desse total; a produção, o transporte e o consumo de combustíveis fósseis, por 35%; e o manejo de resíduos orgânicos, por 20%.
A Agência Internacional de Energia estima que 75% das emissões de metano da indústria petrolífera podem ser reduzidas com custo negativo, o que permitiria lucro às empresas. As medidas incluem evitar vazamentos, aprimorar processos de ventilação e flare e reaproveitar o gás.
Pecuária concentra emissões no Brasil
Uma regulamentação sobre metano está em consulta pública no Brasil e pode ser publicada até o fim deste ano. No setor de resíduos, metade do material levado aos aterros sanitários é orgânico e poderia ser destinado à compostagem.
Florianópolis é citada como a cidade com a maior taxa de compostagem da América Latina. Também há aterros que capturam metano para produzir biogás, produto incluído na Lei do Combustível do Futuro. O Plano Nacional de Resíduos Orgânicos busca apoiar programas municipais, mas ainda falta ampliar a escala dessas iniciativas.
Os resíduos respondem por 16% das emissões de metano no Brasil. A pecuária é responsável por 76%. Entre as medidas apontadas está o aumento da produtividade, com redução do tempo de permanência dos animais no pasto.
Bezerra citou uma barreira sanitária adotada pela China, que exigiu que a carne brasileira exportada não viesse de animais com mais de 30 meses. A chamada pecuária regenerativa também é apresentada como alternativa para reduzir emissões.
O tema será discutido a partir deste domingo (20), durante a Semana do Clima, em Nova York, realizada paralelamente à Assembleia Geral da ONU.








