A ascensão da direita na América Latina deve influenciar o debate eleitoral brasileiro em 2026, principalmente por meio de pautas como segurança pública, combate ao crime organizado e defesa de valores conservadores. A transferência direta de votos entre países, porém, é considerada limitada.
Para Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o avanço de forças de direita está ligado ao esgotamento dos governos tradicionais diante de demandas sociais e econômicas acumuladas. “É muito natural a gente ver alternância de poder, ideológica”, afirma.
Crise e segurança
O fim do ciclo das commodities, que havia beneficiado países como Brasil e Venezuela no início do século, reduziu a capacidade dos governos de promover crescimento e redistribuição de renda. A pandemia e a desindustrialização em parte da região ampliaram a crise de representatividade dos partidos tradicionais.
Nesse cenário, a violência ganhou espaço no debate político. “O que mais está contando, assim, na América Latina no geral, é os índices de violência”, diz Bressan.
O combate ao crime passou a ser uma das principais bandeiras de líderes conservadores. Em El Salvador, Nayib Bukele ganhou popularidade com uma política de encarceramento em massa e repressão às gangues. No Equador, Daniel Noboa adotou uma postura de endurecimento contra organizações criminosas.
Efeito sobre o Brasil
Segundo a especialista, experiências como as de Bukele e Noboa podem influenciar o debate brasileiro devido à sensação de insegurança da população. A influência ocorre mais na legitimação de discursos do que na mudança direta do comportamento do eleitor.
O sucesso de Bukele e de Javier Milei, na Argentina, pode estimular candidatos brasileiros a adotar estratégias semelhantes. Bressan também ressalta que não há uma onda homogênea de direita na região, porque cada país enfrenta problemas próprios. Na Bolívia, a eleição de Rodrigo Paz em 2025 rompeu com quase duas décadas de domínio do Movimento ao Socialismo (MAS), sem necessariamente repetir a mesma guinada conservadora observada em outros países.
No Brasil, pautas conservadoras podem ganhar força e favorecer candidatos alinhados ao bolsonarismo. Ainda assim, a conjuntura macroeconômica, a governabilidade legislativa, a capacidade de atrair eleitores moderados e os programas abrangentes de transferência de renda devem ter peso próprio.
Assim, as eleições dos países vizinhos devem servir mais como referência para discursos e estratégias eleitorais. Em 2026, o resultado brasileiro dependerá sobretudo das condições políticas e econômicas internas.








