Experiências de popularidade, rejeição e isolamento vividas na adolescência podem continuar influenciando a vida adulta, inclusive na forma como as pessoas interpretam interações sociais, constroem relacionamentos e avaliam a própria vida. Pesquisas também associam essas experiências à saúde e a resultados profissionais.
Como os grupos eram classificados
Estudos conduzidos pelo psicólogo americano John Coie, no início dos anos 1980, partiram de duas perguntas feitas a crianças sobre os colegas: de quem gostavam mais e de quem gostavam menos. A análise das respostas levou à criação de cinco categorias sociais: aceitas, rejeitadas, controversas, negligenciadas e medianas.
As crianças controversas eram lembradas tanto de forma positiva quanto negativa. As negligenciadas quase não apareciam nas respostas. Já as medianas não se destacavam em nenhuma direção. Muitos estudos posteriores confirmaram a utilidade desses rótulos. Cerca de 40% das crianças eram classificadas como médias, enquanto 60% pertenciam a uma das outras categorias.
Os rótulos tendiam a permanecer mesmo quando as crianças entravam em novos grupos. Um estudo mostrou que cerca de metade delas mantinha, cinco anos depois, no ensino médio, a mesma classificação que tinha no ensino fundamental.
Status e popularidade
No ensino médio, a popularidade nem sempre correspondia a ser querido. Alunos dominantes, atraentes, bem-vestidos ou bons nos esportes podiam conquistar atenção. Comportamentos considerados pseudomaduros, como beber álcool, usar drogas e iniciar precocemente relacionamentos românticos, também aumentavam as chances de status, pelo menos durante algum tempo.
Mitch Prinstein, professor de psicologia da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, afirma que ser querido e ter alto status produzem efeitos diferentes. A simpatia está associada a resultados positivos na saúde, no trabalho, na vida acadêmica e na saúde psicológica. O alto status, por outro lado, pode levar a resultados opostos.
A popularidade também deixa marcas na memória. Mesmo décadas depois da escola, a maioria das pessoas consegue recordar o nome do aluno mais popular de seu ano com mais facilidade do que os nomes de professores e outros colegas, escreveu Prinstein em seu livro de 2017, “Popular: The Power of Likability in a Status-Obsessed World”.
Efeitos que permanecem
Em um estudo de 2015, Joseph Allen acompanhou 184 adolescentes do sudeste dos Estados Unidos dos 13 aos 23 anos. Jovens obcecados por status que adotavam comportamentos pseudomaduros no início da adolescência apresentaram maior risco de dificuldades duradouras em relacionamentos próximos e de comportamentos criminosos.
A iniciação precoce ao álcool e às drogas foi associada a maior vulnerabilidade ao abuso de substâncias e a problemas de dependência mais tarde. O foco no status também esteve relacionado a vínculos mais superficiais e a dificuldades para manter amizades e relacionamentos amorosos.
A rejeição pode produzir outro tipo de efeito. A pesquisa de Prinstein indicou que alunos rejeitados no ensino médio tinham maior probabilidade de se tornar mais deprimidos com o passar do tempo. A hipótese é que a rejeição favoreça o isolamento, o que intensifica a sensação de rejeição.
Em contraste, ser aceito aparece como um forte indicador de carreira bem-sucedida, boa saúde e relacionamentos sólidos, até mesmo quando comparado a fatores como inteligência e origem socioeconômica. Ainda assim, a rejeição também pode contribuir para o desenvolvimento de maior capacidade de identificar emoções e perceber quando outras pessoas são maltratadas.
Ter um ou dois bons amigos na adolescência pode exercer efeito protetor e fortalecer relacionamentos futuros. Portanto, não ser aceito por todo o grupo não impede necessariamente uma vida social satisfatória na idade adulta.
Memórias como modelo social
Lucy Foulkes, psicóloga da Universidade de Oxford, observa que a intensidade do ambiente escolar vem da convivência diária com as mesmas pessoas durante anos. Para ela, uma dinâmica semelhante aparece na vida adulta em contextos como o exército ou a prisão.
Prinstein afirma que as pessoas podem usar experiências dos 14 anos como modelo para interpretar situações sociais posteriores. Quando esse modelo leva alguém a procurar apenas sinais que confirmem expectativas negativas, o comportamento adotado pode estimular novas experiências ruins.
A atualização desses padrões pode mudar a forma como acontecimentos ambíguos são interpretados e favorecer experiências mais positivas. “As pessoas podem absolutamente mudar o rumo das coisas”, diz Prinstein.
Os estudos também indicam que os rótulos escolares não determinam toda a trajetória. Georgia e Connie, cujos nomes foram alterados, relataram experiências distintas de status, bullying, isolamento e autossabotagem. Ambas encontraram caminhos diferentes na vida adulta, mostrando que as classificações da adolescência podem perder força ao longo do tempo.








