CHINA — O consumo indevido de medicamentos controlados entre adolescentes chineses aumentou, especialmente entre menores de idade, segundo a Comissão Nacional de Controle de Narcóticos da China. Jovens relatam o uso de remédios para lidar com a pressão dos estudos, a ansiedade e conflitos familiares.
A estudante Xiaomei*, de 14 anos, passou dois anos tomando medicamentos vendidos apenas com receita médica. Ela comprava os produtos pela internet, sem que tivessem sido prescritos para ela ou para alguém da família.
A jovem começou com um remédio para tosse indicado por um rapaz mais velho. Depois, passou a experimentar medicamentos recomendados em grupos de bate-papo, incluindo produtos usados contra dores, convulsões epilépticas e dores neuropáticas. Em algumas ocasiões, tomou cinco comprimidos; em outras, mais de dez. Antes de um exame de ingresso na escola secundária, chegou a ingerir 50 comprimidos e precisou ser levada ao hospital.
Xiaomei relatou que recorria aos remédios quando ia mal nas provas ou discutia com os pais. O consumo provocou tontura, perda de memória e um estado constante de atordoamento. Em doses elevadas, alguns desses medicamentos podem causar alucinações, perda de coordenação, confusão e delírios.
Compra pela internet
O governo chinês iniciou, há dois anos, uma ofensiva nacional contra o medicamento para tosse usado por Xiaomei. O produto foi classificado como psicotrópico e passou a exigir receita médica. Depois, em abril deste ano, as autoridades impuseram controles mais rigorosos sobre outro medicamento, após identificarem seu consumo entre jovens.
Mesmo assim, o produto foi oferecido em um chat online por 10 yuanes chineses (US$ 1,50, cerca de R$ 7,65) por grama. Xiaomei também contou que 50 comprimidos do remédio para tosse custavam menos de um dólar (cerca de R$ 5,10).
Um relatório de 2025 elaborado para o Instituto de Prevenção de Crimes do Ministério da Justiça da China afirma que os jovens encontram alternativas rapidamente quando um medicamento passa a ser controlado. Para evitar a detecção, alguns usam nomes diferentes para se referir às substâncias.
Pressão e saúde mental
Em 2023, um estudo feito para o Livro Azul de Saúde Mental da China estimou que cerca de 95 milhões de pessoas sofriam de depressão. Mais de 30% desse grupo eram menores de 18 anos.
O sociólogo Xiang Biao, diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Social, relaciona a pressão dos adolescentes ao isolamento, às expectativas familiares e à competição escolar. Segundo ele, muitos passam pelo menos nove ou 10 horas na escola e têm poucas oportunidades de formar relações sociais.
Dados oficiais de 2025 mostram queda de 41% no número de novos consumidores de drogas entre menores de 35 anos. Ao mesmo tempo, as autoridades reconheceram que o uso indevido de medicamentos controlados se tornou um problema generalizado.
O governo chinês planeja criar salas de orientação em todas as escolas, oferecer serviços psiquiátricos em pelo menos um hospital de cada condado e ampliar o número de profissionais de saúde mental. A meta é estabelecer um sistema nacional de apoio psicológico e intervenção em crises até 2030.
Segundo o Conselho de Estado chinês, 92% das escolas primárias e 95% dos estabelecimentos de ensino secundário básico já têm orientadores. Um estudo de 2020 publicado na revista The Lancet apontou, porém, que havia apenas 500 psiquiatras pediátricos qualificados na China.
Xiaomei afirmou que a mudança na postura dos pais, que passaram a ouvi-la após a overdose, foi importante para sua recuperação. Lu Jingchan*, de 22 anos, também relatou ter sofrido mais de quatro overdoses em quatro anos. Depois de abandonar as medicações, ele passou a usar as redes sociais para aconselhar outros jovens a não começar a consumi-las.
*Os nomes dos jovens foram alterados para proteger suas identidades.








