SÃO FRANCISCO (EUA) E NOVA YORK — Empresas de tecnologia ofereceram até US$ 300 bilhões em garantias para financiar data centers de inteligência artificial e chips nos últimos 12 meses. Os compromissos são assumidos, em grande parte, por veículos de propósito específico que detêm os ativos, o que reduz o impacto imediato nos balanços das garantidoras.
As garantias de valor residual estabelecem um preço mínimo futuro para chips ou data centers. Se os ativos forem vendidos ou realugados por um valor menor, a empresa de tecnologia cobre a diferença. A estrutura permite obter crédito mais barato, com taxas normalmente entre 1% e 1,5% acima das cobradas na dívida da própria garantidora.
Acordos de Broadcom, Nvidia e Meta
A Broadcom assumiu uma exposição de US$ 29 bilhões em junho para vender 1 gigawatt (GW) em chips a uma empresa que os arrendará à Anthropic. O programa foi desenvolvido com o Google. A previsão incluía outros 5 GW do produto para a Anthropic e 1,3 GW em semicondutores personalizados para a OpenAI.
A fabricante afirmou que a baixa probabilidade de acionamento das garantias se relacionava à rentabilidade dos principais laboratórios de IA e ao valor dos ativos usados como suporte.
A Nvidia também criou um programa de financiamento de fornecedores. A empresa pode oferecer garantias de até 25% em operações estruturadas pelo Goldman Sachs e por investidores que planejam reunir US$ 500 bilhões para projetos de infraestrutura de IA com tecnologia da Nvidia.
A companhia ainda concedeu US$ 105 bilhões em garantias à SB Energy, subsidiária do SoftBank, para um complexo de data centers em Ohio, nos Estados Unidos, que será construído para a OpenAI. A Nvidia não registrará passivo referente à operação até o início dos contratos de arrendamento da OpenAI, em 2028. O complexo usará exclusivamente equipamentos da fabricante durante 20 anos.
A Meta foi a primeira das grandes empresas do setor a usar o modelo. A companhia ofereceu uma garantia de US$ 28 bilhões para sua parceria com a Blue Owl na construção do data center Hyperion, na Louisiana. O projeto terá capacidade de 2 GW e deve começar a operar até 2030. A estrutura ajudou a captar US$ 27 bilhões em dívida, com pouca exposição registrada nos livros contábeis da empresa.
A Meta também usou uma estrutura semelhante em julho para apoiar um data center de 1 GW em construção em El Paso, nos Estados Unidos.
Exposição fora dos balanços
Analistas do Morgan Stanley contabilizaram mais de US$ 3,1 trilhões em compromissos extrapatrimoniais e suporte de crédito concedidos por sete hiperescaladores e fabricantes de chips.
Doug Colandrea, diretor sênior da KBRA, afirmou que houve uma expansão significativa da exposição extrapatrimonial no último ano e que isso aumentou a complexidade dos riscos de crédito das empresas.
As agências de classificação de risco fazem ajustes nos indicadores de alavancagem para refletir essas obrigações. A S&P acrescenta o valor pelo qual a garantia supera sua estimativa para o preço dos ativos em uma venda sob condições adversas.
Pierre Georges, da S&P Global, disse que a maior diferença observada entre o valor sob estresse e a dívida em uma operação desse tipo foi de cerca de 25%. Em uma estrutura de US$ 20 bilhões, isso representaria um ajuste de aproximadamente US$ 5 bilhões nos passivos da garantidora.
No caso do data center Hyperion, a S&P aplicou uma redução à avaliação do projeto, mas concluiu que o ativo ainda valia mais do que a dívida respaldada. Por isso, não foi necessário ajustar a alavancagem da Meta.








