A intensificação do El Niño pode afetar os preços em diferentes momentos, começando por alimentos frescos e avançando para carnes, energia, combustíveis e produtos industriais. A previsão do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional dos Oceanos e da Atmosfera (CPC/NOAA) aponta 83% de probabilidade de o fenômeno alcançar as categorias forte a muito forte no primeiro trimestre de 2027.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou inflação de 4,58% nos 12 meses encerrados em setembro. Para Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos, o El Niño pode acrescentar 0,40 ponto percentual ao IPCA acumulado. Em um cenário mais severo, o impacto chegaria a 1,2 ponto percentual até o primeiro semestre de 2027.
Alimentos frescos e grãos
As lavouras de ciclo curto devem reagir primeiro às alterações no clima. No Sul, o excesso de chuva e os vendavais podem danificar folhas, encharcar o solo e dificultar a colheita. No Centro-Oeste, a precipitação intermitente, e no Norte, as secas, também alteram as condições de produção.
No IPCA de setembro, o tomate subiu 37,8%, a batata-inglesa, 24,1%, e a cebola, 10,1%. André Braz, coordenador de Índices do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), afirma que a irregularidade do volume e da distribuição das chuvas é um dos fatores de pressão.
Soja e milho tendem a sentir os efeitos conforme o calendário das safras. A estiagem prolongada no Centro-Oeste e no Matopiba — área de produção no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — pode reduzir a produtividade, enquanto o excesso de chuva no Sul prejudica o manejo e a qualidade dos grãos. Os analistas do Rabobank informaram que os preços desses produtos no atacado subiram mais de 5% em setembro.
A menor oferta de grãos pressiona óleos vegetais, farinhas e panificados. A demanda por biocombustíveis e os custos de frete e embalagem ampliam o impacto sobre os alimentos processados. Nas carnes, a seca reduz a qualidade das pastagens e encarece a alimentação dos animais. O Rabobank registrou alta de 3,4% na carne bovina no atacado, na comparação com o mês anterior.
Energia, combustíveis e indústria
A redução dos reservatórios pode levar o sistema a usar usinas térmicas movidas a gás natural e carvão. O custo maior de geração pressiona as bandeiras tarifárias. Em setembro, a energia elétrica residencial subiu quase 8%, após o fim do Bônus de Itaipu e com a vigência da bandeira amarela.
No setor de combustíveis, o clima pode afetar a oferta de etanol ao prejudicar canaviais. O preço também depende do tamanho da safra, da divisão da produção entre açúcar e etanol, dos estoques e da relação com a gasolina. O petróleo Brent estava ao redor de US$ 105 por barril, com alta de 65,5% em 12 meses.
A seca nos rios da bacia Amazônica dificulta o transporte de combustíveis e de mercadorias. Viagens fracionadas, transbordos e sobretaxas elevam os custos. Na Zona Franca de Manaus, o problema pode afetar o escoamento de smartphones, notebooks, televisores e motocicletas.
Quando o transporte fluvial fica inviável ou atrasado, produtos de maior valor podem ser enviados por avião. O querosene de aviação subiu 11,8% em outubro e estava 74% acima do preço de 1º de março, aumentando o custo do frete e pressionando os preços finais.








