A melhora dos indicadores de emprego e renda não se traduziu em confiança maior do consumidor. Análise de Fernando de Holanda Barbosa Filho, Paulo Peruchetti e Janaína Feijó, associados ao FGV Ibre, relaciona essa diferença ao endividamento elevado, à inadimplência e ao custo do crédito, com impacto maior sobre as famílias de menor renda.
Indicadores positivos, percepção negativa
Com base na Pnad Contínua, do IBGE, os economistas apontam que, desde o fim de 2019, o emprego avançou em média 1,3% ao ano e o rendimento cresceu 1,9% ao ano. No período, a taxa de desemprego caiu 5 pontos percentuais e o nível de ocupação aumentou 1,9 ponto percentual.
A confiança do consumidor, porém, permaneceu abaixo de 100 pontos em todas as faixas de renda na Sondagem FGV. O pessimismo é mais intenso entre os domicílios com menores rendimentos.
Parte da melhora registrada no mercado de trabalho estaria associada a mudanças na composição da população, e não necessariamente a condições melhores para cada trabalhador. O brasileiro ficou mais escolarizado e a população envelheceu. Como pessoas com maior escolaridade tendem a apresentar taxas menores de desemprego e rendimentos mais altos, a mudança no perfil influencia as médias gerais.
Sem esse efeito de composição, a taxa de desemprego do primeiro trimestre de 2026 seria de 7,4%, em vez de 6,1%. A renda seria cerca de 23% menor que a oficial.
A análise também considera o impacto dos preços dos alimentos, que têm peso maior no orçamento das famílias pobres. Corrigida por esse índice, a renda indica perda de poder de compra. “É essa conta que explica a sensação de que o carrinho de supermercado está mais vazio com o mesmo dinheiro”, disse Barbosa Filho.
Dívidas e crédito mais caro
O comprometimento da renda das famílias com dívidas junto ao sistema financeiro está em cerca de 30%, perto dos maiores níveis da série histórica iniciada em 2007. Em abril de 2026, aproximadamente 25% do crédito livre destinado a pessoas físicas estava concentrado em modalidades mais caras, como cheque especial, crédito não consignado e cartão rotativo e parcelado.
A inadimplência da carteira de crédito livre para pessoas físicas chegou a 7,2% no mesmo mês. Dados da Serasa indicam que o número de inadimplentes passou de 59 milhões em 2016 para quase 84 milhões em 2026. A parcela de inadimplentes na população adulta subiu de 40% para 50%.
As financeiras, que cobram juros mais altos, também ampliaram sua participação no endividamento das famílias em relação aos bancos tradicionais.
A piora alcança todas as faixas de renda, inclusive quem recebe mais de dez salários mínimos, mas é mais forte entre os mais pobres. Em abril de 2026, 21,2% das pessoas com renda de até três salários mínimos se declaravam muito endividadas, contra 9,1% entre aquelas com renda acima de dez salários mínimos.
Cerca de 38% dos mais pobres tinham dívidas em atraso, ante 15% dos mais ricos. Entre os primeiros, 18% afirmavam não conseguir quitar os débitos; entre os de maior renda, eram 5%.
Alívio temporário
O IDC, índice criado por pesquisadores da FGV EAESP, registrou alta no período pós-pandemia e apenas uma melhora parcial e temporária após o Desenrola Brasil. O indicador caiu de 0,90 para 0,67, em uma escala de 0 a 1, mas voltou a subir para 0,94.
Neste ano, o governo lançou o Novo Desenrola. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, 6 milhões de pessoas e famílias haviam renegociado dívidas até o início de junho. Para Peruchetti, sem enfrentar as causas estruturais do endividamento, o efeito tende a ser passageiro.
Em junho, o Datafolha registrou queda de 9 pontos percentuais na parcela dos que esperavam piora da situação econômica do país. O índice passou de 35% para 26% em relação à pesquisa anterior, realizada no início de março.
O estudo também examinou a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000, em vigor desde janeiro de 2026, com desconto até R$ 7.350. Os maiores ganhos proporcionais, de até 6,3%, ficam próximos de R$ 5.000. Essa foi a única faixa com ganho real acima da inflação acumulada em 12 meses, de 4,7%.
Como os trabalhadores de renda mais baixa já eram majoritariamente isentos e os que ganham acima de R$ 7.350 quase não são afetados, o número potencial de beneficiários caiu de 21 milhões para cerca de 8 milhões. O efeito imediato se concentra em pessoas com carteira assinada e desconto em folha.








