BELO HORIZONTE — A ópera “Chica da Silva”, produzida pelo Palácio das Artes, estreia neste sábado em Belo Horizonte com uma abordagem centrada na humanidade da personagem histórica. A montagem também terá apresentações na segunda e na quarta-feira.
A obra desloca o foco da imagem mítica associada a Chica da Silva e apresenta uma história de amor atravessada pelas desigualdades raciais e econômicas do século 18. Uma versão reduzida, chamada “Chica em Diamantina”, foi encenada em uma praça da cidade histórica mineira.
O libreto é assinado pelo cineasta Marcos Bernstein e por Flávia Bessone. Bernstein afirma que a ópera contrapõe as interpretações construídas sobre Chica aos possíveis desejos e conflitos vividos por ela. “Nossa ideia é construir a história de uma mulher que viveu nessas condições e conseguiu o melhor que ela podia alcançar dentro deste contexto”, diz.
Filha de pai branco e mãe escravizada africana, Chica nasceu entre 1731 e 1735 e viveu durante o ciclo de extração de diamantes em Diamantina, então chamada Arraial do Tejuco. Ela foi alforriada pelo contratador João Fernandes de Oliveira, com quem manteve uma união estável por 17 anos. Como o casamento oficial era impedido pela legislação da época, a relação foi descrita como concubinato. O casal teve 13 filhos, reconhecidos pelo pai.
Na montagem, o primeiro ato aborda os obstáculos enfrentados pelo relacionamento entre Chica e o contratador. A alforria é representada em um dueto no qual os dois declaram o amor e deixam o palco de mãos dadas.
A soprano paulista Marly Montoni interpreta Chica. Filha de mãe negra e pai branco e integrante de um relacionamento inter-racial, ela afirma ter levado experiências pessoais para a composição da personagem. “A Chica, em certos aspectos, sou eu”, diz.
Embora utilize pesquisas históricas, incluindo a biografia publicada em 2003 pela historiadora Júnia Ferreira Furtado, a ópera recorre à ficção para desenvolver o drama e abordar questões contemporâneas. A direção cênica, de Julianna Santos, incorpora elementos afro-brasileiros, como congado, capoeira e adinkras, símbolos de povos da África Ocidental.
A montagem tem direção-geral de Cláudia Malta, música de Guilherme Bernstein e direção musical e regência de André Brant. A produção faz parte das comemorações dos 55 anos do Palácio das Artes e dá continuidade ao investimento do complexo em obras sobre a cultura mineira, como “Aleijadinho”, de 2022.








