A passagem do tempo aparece em ciclos de fertilidade, estiagem, festas e fenômenos naturais na exposição “Pequeno Mapa do Tempo”, primeira individual de Paula Siebra na Casa Iramaia. As obras, feitas com tons terrosos, partem de memórias e vivências da artista cearense, e não de uma abordagem científica.
A mostra foi organizada a partir de quatro eixos. A estrutura surgiu depois de uma residência em Kyoto, onde Siebra conheceu os saijikis, dicionários de palavras ligadas à natureza usados na composição de pequenos poemas. Para a pesquisadora Pollyana Quintella, responsável pelo texto de apresentação, o conjunto funciona como um calendário tropical, sem seguir as estações do Japão ou do hemisfério norte.
Chuva e celebrações
O núcleo da chuva reúne uma pintura com marcas sobre um telhado, flores brancas em uma planta verde, um caracol entre folhas flutuantes e pedestres em uma rua coberta por névoa. Algumas folhas lembram protozoários, enquanto as nuvens sugerem a possibilidade de inundação.
As celebrações aparecem nas relações entre a natureza e as pessoas. Uma obra mostra participantes de uma ciranda de fitas coloridas sob um céu estrelado, em referência às festas juninas. Outra retrata jovens carregando um boneco de Judas, ligado à tradição de queimá-lo na noite anterior à Páscoa. Há também uma pintura de grãos de feijão, cuja colheita motiva eventos no Ceará.
Siebra afirma que a pintura japonesa influenciou o uso do vazio, das transições sutis de cor e de elementos apresentados sem obstruções. Para ela, o público observa as imagens como quem lê um haikai, poema japonês curto formado por três versos.
Vento e seca
O terceiro eixo apresenta as forças do vento. Uma jangada ocupa o mar agitado, com a vela amarela aberta e ondas escuras junto ao casco. Em outra obra, a artista aparece penteando os cabelos diante de uma janela aberta. Uma palmeira se destaca em uma praia noturna, acompanhada por uma lua voltada para cima.
O último núcleo é dedicado à seca, com formigas, troncos e uma mulher deitada em uma rede sobre a terra arrasada. A flor branca do mandacaru sinaliza o reinício do ciclo. A artista também exibe uma planilha digital que combina nomes de animais e vegetais, seu próprio saijiki. Siebra diz que ainda não sabe como ilustrará o canto de alguns pássaros e outros elementos metafísicos.








