FRANÇA — Protestos contra cortes de gastos e demandas por mais recursos para a educação expõem a crise fiscal enfrentada pelo governo de Emmanuel Macron. As manifestações começaram em setembro, em apoio a professores de uma escola de Paris, e cresceram com confrontos com forças de segurança, feridos, prisões e suspensão de aulas em estabelecimentos de ensino.
No final de setembro, o INSEE informou que a dívida pública francesa havia alcançado 119% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior nível desde os mais de 300% registrados em 1946, no pós-Segunda Guerra Mundial. Antes da pandemia de Covid-19, a dívida equivalia a menos de 100% do PIB.
Durante a emergência sanitária, o governo Macron aumentou o endividamento para sustentar a economia afetada pelas medidas restritivas contra o coronavírus. A política ficou conhecida como “custe o que custar”. Agora, o presidente tenta reduzir despesas e equilibrar as contas, mas enfrenta resistência de manifestantes, do partido A França Insubmissa (LFI) e do Reagrupamento Nacional (RN).
Impasse político e previdenciário
A reforma da Previdência de 2023 elevou a idade mínima de aposentadoria de 62 para 64 anos. A medida provocou grandes protestos depois que a então primeira-ministra Élisabeth Borne usou o artigo 49.3 da Constituição francesa para aprová-la sem votação no Parlamento.
Em outubro de 2025, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou a suspensão da reforma até a eleição presidencial de 2027, após pressão da esquerda. Entre setembro de 2024 e setembro de 2025, a França teve três primeiros-ministros.
Michel Barnier e François Bayrou foram derrubados por votos de desconfiança articulados pela esquerda e pelo RN, contrários aos cortes defendidos por Macron. Lecornu deixou o cargo em menos de um mês por causa do impasse orçamentário, mas foi indicado novamente pelo presidente e permanece como primeiro-ministro.
As contas públicas também sofrem pressão com o aumento dos gastos em defesa, cobrado pelo presidente americano Donald Trump aos integrantes da Otan diante da ameaça da Rússia.
A eleição presidencial será realizada em abril. Jean-Luc Mélenchon, líder do LFI, e Marine Le Pen, do RN, aparecem entre os primeiros colocados nas pesquisas. Mélenchon mantém a defesa de maiores gastos, enquanto Le Pen passou a apoiar cortes. Andrew Kenningham, economista-chefe para a Europa da Capital Economics, avaliou que a proposta do RN de reduzir impostos pode pressionar as contas públicas e elevar a preocupação dos investidores com o populismo fiscal após a eleição.
Risco de crise prolongada
Frederico Dias, do Ibmec Brasília, afirmou que Lecornu tem pouca margem para negociar. Segundo ele, concessões internas podem reduzir a credibilidade externa do governo, enquanto cortes ampliam a mobilização doméstica. Para Dias, a crise dificilmente levaria à insolvência do Estado francês, mas poderia se tornar crônica, com governos frágeis, orçamentos aprovados no limite e risco de rebaixamento da classificação da França.
Eduardo Galvão, também do Ibmec Brasília, disse que o país enfrenta dificuldade para conciliar as demandas sociais com a capacidade financeira do Estado. Ele afirmou que a falta de uma perspectiva consistente de equilíbrio fiscal aumenta a desconfiança dos investidores, pressiona os juros e eleva o custo da dívida, reduzindo recursos para áreas como educação, saúde e infraestrutura.
Para Galvão, tanto o LFI quanto o RN precisam explicar como financiarão suas propostas sem ampliar o desequilíbrio das contas públicas. O risco de populismo fiscal, segundo ele, aparece quando se prometem mais gastos ou menos impostos sem demonstrar como essas medidas serão sustentadas.







