O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, enfrenta três crises territoriais com menos de dois meses no cargo. Ele assumiu em 20 de julho e é pressionado por disputas envolvendo o arquipélago de Chagos, as Ilhas Malvinas e pedidos de independência do País de Gales, da Escócia e da Irlanda do Norte.
O governo britânico avalia transferir às Ilhas Maurício a soberania sobre Chagos, reivindicado pelo país do Oceano Índico desde sua independência do Reino Unido, em 1968. O plano foi aprovado pelo governo trabalhista anterior, mas acabou suspenso após críticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Trump classificou a transferência como “estupidez” e afirmou que a medida poderia afetar a base militar conjunta de Estados Unidos e Reino Unido em Diego Garcia, uma ilha do arquipélago. O ex-primeiro-ministro Keir Starmer havia aprovado o projeto e depois recuou.
Malvinas e pedidos de independência
A Argentina retomou, no início deste mês, a pressão pela soberania das Ilhas Malvinas. Em 3 de setembro, o presidente Javier Milei anunciou sanções contra empresas que exploram recursos naturais no arquipélago e informou que pretende construir uma base naval integrada na província da Terra do Fogo.
Trump também disse, no fim de agosto, que poderia reavaliar a posição dos Estados Unidos na disputa entre Argentina e Reino Unido. Atualmente, Washington mantém neutralidade, mas reconhece o controle britânico sobre as ilhas.
Nesta segunda-feira (14), os primeiros-ministros do País de Gales, da Escócia e da Irlanda do Norte divulgaram um memorando pedindo que o governo britânico facilite mudanças constitucionais para a independência dos três países. No domingo (13), Trump havia defendido a reunificação da Irlanda.
Se referendos confirmarem a independência, o Reino Unido seria dissolvido, com a permanência apenas da Inglaterra no bloco. O governo Burnham afirmou que o país é mais forte quando seus cidadãos se unem em torno de valores compartilhados. Sobre as Malvinas, um porta-voz declarou que as Forças Armadas britânicas estão prontas permanentemente para proteger o Reino Unido e seus interesses.
A líder do Partido Conservador, Kemi Badenoch, acusou Burnham de demonstrar fraqueza. Para ela, a intenção de transferir Chagos estimulou a Argentina a reforçar a reivindicação pelas Malvinas.
O ex-primeiro-ministro Boris Johnson afirmou que as declarações de Trump podem ser uma resposta à recusa de Londres em ajudar os Estados Unidos a reabrir o Estreito de Ormuz durante a guerra com o Irã. Ele também relacionou a pressão americana ao apoio de Ronald Reagan a Margaret Thatcher em 1982, durante a guerra pelas Malvinas.
Para Igor Lucena, economista e doutor em relações internacionais, Trump usa a questão das Malvinas como instrumento de pressão contra o governo trabalhista britânico. Lucena avaliou que os pedidos de independência têm poucas chances de avançar juridicamente, mas podem aumentar o desgaste político de Burnham.
O analista afirmou que as dificuldades econômicas após o Brexit e a relação com a União Europeia influenciam os movimentos de Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. Na avaliação dele, o principal risco é para o mandato do primeiro-ministro, e não para a integridade territorial do Reino Unido.







