Trevor Warmedahl percorre regiões remotas em busca de produtores que preservam métodos tradicionais de fabricação de queijos. Para ele, esses alimentos registram relações entre animais, território, clima, paisagem e conhecimentos transmitidos entre gerações.
A jornada começou quando Warmedahl trabalhava como produtor comercial de queijos em Seattle, nos Estados Unidos. Ele percebeu que usava leite de animais que nunca tinha visto, abandonou o emprego e passou a buscar uma relação mais direta entre o animal, o produtor, o território e o alimento.
Desde então, o americano visitou mais de 20 países. A experiência deu origem ao projeto Milk Trekker, que reúne viagens, pesquisas, registros, oficinas e conteúdo sobre queijos tradicionais e comunidades pastoris. Em 2026, ele lançou o livro Cheese Trekking, dedicado à relação entre viagens, produção de queijo, território e cultura.
“Comecei a viajar e documentar por uma sensação de urgência, porque sentia que essas coisas estavam ameaçadas e desaparecendo”, afirmou Warmedahl.
Experiências na Mongólia e na Geórgia
Na Mongólia, em 2019, Warmedahl viveu sozinho em uma iurta, em Ulan Bator, e conheceu o significado simbólico do leite e de seus derivados para a cultura local. Depois, passou um verão com uma família de pastores nas estepes, onde ordenhava iaques, acompanhava os animais a cavalo e aprendia a preparar aaruul, uma coalhada seca tradicional, de sabor agridoce.
Em Tusheti, região montanhosa da Geórgia próxima à fronteira com a Rússia, acompanhou a produção do Tushuri guda. O queijo, semelhante ao feta, amadurece dentro de peles de ovelha colocadas do avesso.
Ao fim da temporada, Warmedahl caminhou cerca de 130 quilômetros pelo vale com os pastores e um rebanho de aproximadamente 300 ovelhas. A experiência mostrou a ele como a produção do alimento está ligada ao deslocamento dos animais e à rotina da comunidade.
Para encontrar esses produtores, ele pesquisa queijos, envia e-mails, bate em portas e pede indicações. Em algumas ocasiões, chega a uma região e começa a caminhar ou fazer perguntas até encontrar alguém disposto a recebê-lo.
O ambiente como parte do queijo
Em 2019, durante uma visita a Bra, no Piemonte, na Itália, Warmedahl conheceu queijos produzidos sem culturas comerciais de fermentação. Um produtor apontou os próprios animais como origem dos microrganismos responsáveis pelo processo.
Ao acompanhar as ovelhas pelos campos, Warmedahl identificou aromas de terra úmida, grama, folhas em decomposição e lã. Depois, percebeu características semelhantes nos queijos. Para ele, foi uma demonstração de como o ambiente pode se expressar no alimento.
“Essa é a ideia do cheese trekking: visitar produtores de queijo, provar os queijos no lugar onde são feitos e tentar compreender a rede de relações que faz o queijo ser o que é”, explicou.
Na Geórgia, ele chama alguns produtos de “queijos fósseis” porque quase desapareceram e estão sendo recuperados como parte de um movimento de valorização cultural pós-soviético. Na Turquia, seu interesse está nos queijos maturados em peles de cabra com pelos, como o tulum peyniri.
Warmedahl também relaciona essa busca à preocupação com o futuro da produção de laticínios. Ele defende a preservação da diversidade de animais, paisagens, microrganismos e técnicas, que considera ameaçada pela industrialização. “Quero ver os ingredientes básicos da fabricação de queijo serem regionalizados tanto quanto possível”, afirmou.








