A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva tenta recuperar terreno no segundo turno com propostas voltadas ao trabalho, à saúde e aos pequenos negócios. Entre as medidas estão o fim da escala 6x1, a oferta de medicamentos contra a obesidade pelo SUS, a ampliação do limite do MEI e a exploração de petróleo, terras raras e minerais críticos.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença foi de 1,87 ponto percentual, equivalente a pouco mais de 2,2 milhões de votos.
Propostas em análise
A mudança na jornada prevê reduzir o limite máximo de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem indicação de corte salarial. A proposta deverá voltar à análise do Senado após um acordo entre Lula e Davi Alcolumbre. A votação, porém, pode ocorrer somente depois do segundo turno, em razão do fortalecimento da oposição no Congresso.
Entidades dos setores de comércio, serviços e indústria afirmam que a redução da jornada elevaria os custos das empresas. Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas estima aumento de 20% no custo da mão de obra, com possibilidade de repasse aos preços.
Na área da saúde, Lula defendeu que o SUS distribua medicamentos injetáveis contra a obesidade, incluindo Mounjaro e Ozempic. A proposta também mira consumidores afetados pelo alto preço desses produtos.
Para os microempreendedores, a promessa é elevar de R$ 81 mil para R$ 140 mil o limite anual de faturamento do MEI e autorizar a contratação de um segundo funcionário. O teto está congelado desde 2018.
Lula também associou sua campanha ao desenvolvimento de minerais críticos e terras raras e à exploração de petróleo na Margem Equatorial.
Pressão sobre as contas públicas
A campanha pretende ainda alcançar 33 milhões de eleitores que não votaram no primeiro turno, equivalentes a 21,1% do eleitorado nacional, além de conquistar parte dos 9,3 milhões de votos recebidos pelos candidatos eliminados.
Analistas, contudo, questionam a capacidade de essas propostas alterarem o cenário. Luan Sperandio, diretor de operações do Ranking dos Políticos, afirmou que o eleitor avalia os resultados concretos do governo e que a percepção de melhora na vida cotidiana não se consolidou.
Rogério Baptistini, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, disse que o governo não deixou clara a forma de conciliar responsabilidade fiscal e expansão das políticas sociais. Para ele, essa indefinição prejudicou a comunicação do Executivo.
Dados do Tesouro Nacional indicam que as despesas totais cresceram cerca de 5% ao ano acima da inflação entre 2023 e 2025. No mesmo período, a taxa Selic chegou a 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026. Atualmente, está em 13,75% ao ano.
A elevação dos juros foi associada por analistas do mercado de crédito ao aumento do endividamento e da inadimplência das famílias, além do crescimento das recuperações judiciais, extrajudiciais e falências de empresas.
Disputa em três semanas
A campanha de Lula terá três semanas para tentar reduzir a diferença. Dos 27 estados, 20 já elegeram seus governadores no primeiro turno. Entre os 20 eleitos, dez são alinhados a Flávio Bolsonaro e cinco a Lula.
A oposição também ampliou sua presença no Congresso Nacional. Para os analistas, a reorganização política nos estados e no Legislativo dificulta a mobilização de palanques locais na reta final.
Baptistini afirmou que as políticas sociais são relevantes, mas vieram acompanhadas de piora nas expectativas. Sperandio avaliou que inflação percebida e endividamento podem limitar o efeito eleitoral das promessas feitas perto da votação.








