O documentário “Dragões”, de Miguel Antunes Ramos, investiga como Jair Bolsonaro construiu sua imagem política por meio de vídeos, estética e redes sociais. A produção reúne cerca de 500 horas de gravações publicadas no YouTube e em outras plataformas pelo ex-presidente e por integrantes de seu clã.
O filme foi exibido durante o Festival do Rio, no fim de semana das eleições presidenciais, e será apresentado também na Mostra de São Paulo antes de chegar ao circuito no ano que vem. A estreia coincidiu com uma votação em que Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula.
Imagens como estratégia
Ramos acompanha cenas de bastidores para mostrar como Bolsonaro explorava a presença de câmeras. Em uma das gravações, o então deputado discute com jovens LGBTQIA+. Ao perceber jornalistas próximos, ele aumenta o tom, usa palavras mais agressivas e orienta um assessor a filmá-lo. Em seguida, outras câmeras passam a registrar a cena.
Para o diretor, esse tipo de situação ajudou a levar Bolsonaro do cargo de deputado federal à Presidência da República. O documentário apresenta os vídeos como parte de uma estratégia de comunicação baseada na aparência de espontaneidade e na construção de um político comum em oposição ao sistema.
“Essa produção imagética tem forma, tem conceito, tem efetividade. Ela é produtora de poder”, afirmou Ramos.
A montagem combina trechos de vídeos, capturas de tela e uma narração que usa conceitos do audiovisual, como plano-sequência e enquadramento. O diretor descreve esse conjunto como o “cinema de Bolsonaro” e compara a construção da imagem política à criação de um herói de filme americano.
Do 7 de Setembro ao presente
O título do documentário remete aos Dragões da Independência, unidade de cavalaria responsável pela guarda da Presidência da República. O filme relaciona a simbologia do 7 de Setembro ao imaginário do grito “independência ou morte”.
A produção começa com uma imagem do quadro “Independência ou Morte”, de Pedro Américo, exposto no Museu do Ipiranga. A partir da obra, Ramos questiona quanto da representação heroica da independência foi construído e aplica a mesma pergunta à ascensão de Bolsonaro na última década.
O diretor afirmou que analisou essas imagens durante oito anos. Ele também produziu “Operações de Garantia da Lei e da Ordem”, sobre os protestos de 2013 e 2014, e “A Voz de Deus”, sobre pregadores mirins.
“Assistindo a ele ontem, parecia um filme sobre o futuro”, disse Ramos ao comentar a permanência dessas formas de comunicação política.








