A inteligência artificial pode criar um problema econômico além da automação: elevar a produção sem garantir poder de compra suficiente para absorver os bens e serviços. Se os ganhos ficarem concentrados no capital, a demanda dos consumidores pode perder força de forma estrutural.
O risco lembra a chamada Pausa de Engels, período posterior à 1ª Revolução Industrial em que os salários reais dos trabalhadores permaneceram estagnados por quase 80 anos, apesar do avanço da produção industrial e do PIB per capita. A riqueza gerada pelas novas tecnologias só chegou aos trabalhadores depois de décadas de ajustes.
Produtividade ainda incerta
A IA pode aumentar a eficiência econômica, mas a passagem entre inovação tecnológica e crescimento mensurável da produtividade tende a ser complexa. O processo envolve dificuldades de medição, mudanças estruturais e defasagens temporais.
O debate remete ao Paradoxo de Solow. Robert Solow observou, durante o início da era da computação, que os computadores estavam visíveis em todos os lugares, exceto nas estatísticas de produtividade. A mesma situação pode se repetir com a inteligência artificial.
Os investimentos maciços também podem inflar uma bolha antes que os ganhos de produtividade apareçam. A confirmação sobre os efeitos econômicos dependerá da prática.
Trabalho e distribuição de renda
Caso a IA cumpra suas promessas, a tecnologia deverá alterar o mercado de trabalho e a divisão da renda. Funções antes consideradas protegidas das máquinas já estão vulneráveis. Embora alguns empregos sejam eliminados e outros criados, o efeito mais profundo pode ocorrer na diferença entre os retornos do capital e os retornos do trabalho.
Na China, os formuladores de políticas já lidam com uma combinação de oferta forte e demanda fraca. Uma adoção global rápida da IA poderia ampliar esse desequilíbrio, especialmente se o capital absorver a maior parte dos ganhos enquanto o trabalho humano for marginalizado.
Resposta de empresas e governos
Para evitar uma nova Pausa de Engels, empresas e governos precisariam agir. As companhias deveriam priorizar aplicações que ampliem as capacidades dos trabalhadores, em vez de substituí-los em massa.
As políticas públicas também teriam de mudar. Instrumentos macroeconômicos tradicionais foram desenhados para enfrentar deficiências cíclicas e de curto prazo na demanda. Se a IA produzir um déficit estrutural e permanente na demanda agregada, estímulos convencionais podem não funcionar.
Nesse cenário, os formuladores de políticas teriam de adotar estratégias inovadoras para distribuir amplamente os ganhos da tecnologia. A humanidade levou 80 anos para enfrentar as crises distributivas da 1ª Revolução Industrial; repetir essa espera seria um risco diante da transformação provocada pela IA.








