O diretor Ilya Khrzhanovsky afirma que a Rússia não passou por um processo de ruptura com o legado soviético e que essa ausência ajuda a manter uma mentalidade autoritária no país. A avaliação aparece associada aos paralelos entre “Dau”, filme ambientado na União Soviética, e a Rússia da era Putin.
“Stálin foi ontem. Ontem à noite. As coisas não mudam tão rápido assim”, disse Khrzhanovsky. Para ele, a falta de expurgos ou de um acerto de contas com o passado mantém esse ciclo em movimento.
Filme e projeto
“Dau” acompanha o físico Lev Landau, desde a juventude até a morte nos anos 1960. O personagem começa defendendo ideais e a liberdade, mas acaba forçado a colaborar com o projeto nuclear soviético e tem papel importante na criação do arsenal de Moscou.
O longa se passa entre 1928 e 1968 e mostra uma população submetida ao medo da repressão estatal. O projeto que deu origem ao filme envolveu cinema, antropologia, arquitetura e performance, além de outros trabalhos relacionados.
Entre 2009 e 2011, foi construído um cenário que reproduzia um instituto tecnológico soviético onde Landau trabalhou. Centenas de não atores permaneceram no local por mais de um ano, em uma rotina criada para simular a vida na União Soviética sob Stálin e seus sucessores.
A produção foi concluída depois de duas décadas e recebeu o prêmio de melhor direção no Festival de Veneza. “Dau” também foi destaque no Festival do Rio.
Disputa sobre a produção
Khrzhanovsky nasceu na Rússia e renunciou à cidadania russa em 2024, após se opor ao governo Putin. Sua indignação aumentou depois da invasão da Ucrânia. Em agosto passado, o Ministério da Cultura ucraniano criticou a inclusão do filme no Festival de Veneza e classificou a participação como um “sinal alarmante”.
Apesar do protesto, o filme foi exibido no festival italiano. Sobre a posição ucraniana, o diretor disse: “É uma guerra”. Ele afirmou que erros e mal-entendidos são mais brutais durante um conflito.
O projeto também foi alvo de acusações de abusos. Após o lançamento de “Dau. Natasha”, em 2020, uma sequência sexual levou parte do público a suspeitar que tivesse ocorrido um estupro durante a filmagem. Khrzhanovsky negou a acusação e afirmou que as cenas eram, em geral, improvisadas.
“Existia a estrutura da cena, mas não os diálogos ou o que iria acontecer”, declarou. Segundo ele, uma cena de tribunal da primeira parte de “Dau” durou três horas sem cortes.
Hoje, Khrzhanovsky mora entre a Alemanha e a França e pretende continuar criando espaços imersivos, fora do cinema. Ele afirma que a experiência lhe deu uma nova percepção sobre o comportamento humano em situações extremas e sobre a fragilidade da fronteira entre o bem e o mal.








