A reorganização da alta complexidade do Sistema Único de Saúde (SUS) deveria incluir uma rede nacional de dados, novos critérios para avaliar hospitais e uso de inteligência artificial, segundo a cardiologista Ludhmila Hajjar. A proposta foi apresentada em artigo publicado na 3ª feira (8.set.2026).
Professora titular de Emergências Clínicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Hajjar afirma que a alta complexidade funciona de maneira fragmentada. Na avaliação dela, o setor precisa operar de forma integrada, com informações sobre pacientes, filas, leitos, equipamentos e capacidade disponível reunidas em uma mesma estrutura.
Cinco frentes de mudança
A médica propõe a criação de uma Central Nacional Inteligente de Acesso à Alta Complexidade, conectada a Estados, municípios e hospitais. O sistema reuniria dados hoje dispersos e permitiria acompanhar a situação de cada paciente, incluindo risco, diagnóstico, tempo de espera, necessidade terapêutica e previsão de atendimento.
A inteligência artificial seria usada para localizar pessoas em piora clínica ou com maior risco de complicações, possibilitando a antecipação de atendimentos. “O cidadão não pode desaparecer dentro de uma planilha”, declarou Hajjar.
Outro eixo prevê substituir a avaliação baseada apenas no número de cirurgias por indicadores como espera, mortalidade, complicações, reinternações, permanência hospitalar, desfechos clínicos e experiência do paciente. A médica também defende contratos de desempenho orientados por valor, com remuneração relacionada à redução de filas, à diminuição de complicações e aos resultados obtidos.
Para medicamentos de alto custo, a proposta combina avaliação de sustentabilidade e ampliação responsável do acesso. Hajjar cita acordos de compartilhamento de risco, pagamento por resultado e renegociação de preços conforme o volume de uso aumentar, além do fortalecimento da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde.
A integração dos dados clínicos formaria outra frente. O objetivo é conectar informações de atendimentos feitos na atenção básica, exames, consultas especializadas e internações, mesmo quando ocorrem em municípios diferentes.
Regionalização e metas
Hajjar também defende a regionalização da alta complexidade. Procedimentos raros e muito complexos seriam concentrados em centros de excelência, enquanto diagnóstico, acompanhamento e parte da recuperação poderiam ocorrer mais perto do paciente.
A proposta inclui um Plano Nacional de Alta Complexidade 2030, com metas de redução do tempo de espera, integração de dados e regulação, financiamento por qualidade e resultado, acesso responsável à inovação e criação de uma rede digital de centros de excelência. O governo federal também deveria usar seu poder de compra para negociar medicamentos, órteses, próteses e equipamentos.
Para a cardiologista, o próximo governo deve buscar mais resultados com cada real investido, sem tratar responsabilidade fiscal e fortalecimento do SUS como objetivos incompatíveis.








