A saída da Uber da Nigéria e o encerramento imediato das operações em Uganda devem obrigar motoristas a buscar outros aplicativos e rever suas estratégias de trabalho. A empresa ficará presente em apenas 4 países africanos: Egito, Gana, Quênia e África do Sul.
Na Nigéria, profissionais afirmam que a comissão cobrada pela plataforma, entre 20% e 25% do valor das corridas, deixou de ser compatível com os custos de operação. Abbas Olamide, motorista em Abuja, relatou o impacto em uma viagem de 30.000 nairas (R$ 115) até o aeroporto. Desse valor, 6.000 nairas (R$ 23) ficam com a Uber.
“Depois disso, ainda preciso pagar a taxa de acesso ao aeroporto. Como ninguém quer voltar para a cidade sem passageiro, também precisamos pagar para estacionar e esperar outro cliente. No fim do dia, o que sobra já não é suficiente”, afirmou Olamide.
Em Lagos, Samuel Olatunji, de 43 anos, disse que terá de recorrer a outros aplicativos para manter uma fonte estável de renda. “Mas o valor que vou levar para casa não será mais o mesmo de antes.” Motoristas como Olamide e Olatunji participaram, nos últimos anos, de greves e protestos contra custos operacionais, tarifas consideradas baixas, condições de trabalho e alta dos combustíveis.
A Uber afirmou que sua prioridade imediata é apoiar motoristas, passageiros e equipes locais durante a transição, mas não detalhou como fará isso. A empresa também disse que a decisão não afeta outras partes da África.
A companhia encerrou atividades na Costa do Marfim e na Tanzânia no último ano e reduziu sua força de trabalho global em 10%. Na região, enfrenta concorrência de Bolt, inDrive e SafeBoda, que atuam na Nigéria, em Uganda e em outros países.
Custos em alta
O sócio da SBM Intelligence, Ikemesit Effiong, relacionou a pressão sobre o negócio ao aumento dos gastos com combustível, manutenção e seguros, além da desvalorização da moeda nigeriana em relação a 2014. Segundo ele, os custos da Uber são atrelados ao dólar, enquanto a receita dos motoristas depende da naira.
Esse descompasso reduziu as margens de lucro, embora o mercado nigeriano de transporte por aplicativo seja estimado em cerca de 450 milhões de dólares anuais. Effiong afirmou que muitos profissionais passaram a usar vários aplicativos, negociar corridas fora das plataformas ou abandonar a atividade.
A situação foi agravada em 2026 pela disparada dos preços nos postos causada pela guerra entre EUA e Israel contra o Irã, segundo os motoristas. A inflação de 2 dígitos em diversas economias africanas também reduziu o poder de compra e tende a diminuir o uso de serviços de transporte por aplicativo.
Em Lagos, Mary-Esther Anele disse que precisará procurar outras opções e que os custos maiores podem reduzir suas viagens. Na África do Sul, a Uber enfrenta resistência de empresas de táxi e operadores de micro-ônibus, com acusações de concorrência desleal e episódios de violência em alguns momentos.







