O uso de antibióticos por mais tempo do que o recomendado pode aumentar o risco de eventos adversos sem trazer benefício adicional para a cura da infecção. Um estudo de 2021 do American College of Physicians aponta associação entre tratamentos antimicrobianos prolongados e infecções graves por Clostridioides difficile, bactéria ligada a quadros severos de colite e diarreia diária.
A duração da terapia é definida por evidências científicas, considerando o microrganismo identificado, o local da infecção e a gravidade do quadro. Também entram nessa avaliação fatores como função renal e hepática, idade, peso e outros medicamentos usados pelo paciente, explica a médica infectologista Raíssa Moraes, do Portal Afya.
“Cada antibiótico tem características próprias de absorção, distribuição, metabolização e eliminação”, afirma Raíssa. Por isso, tanto a quantidade insuficiente quanto o excesso do medicamento podem causar problemas. O objetivo é manter uma exposição capaz de tratar a infecção sem prolongar a administração desnecessariamente.
Efeitos sobre os microrganismos
A microbiota reúne bilhões de microrganismos presentes no trato gastrointestinal, na pele e nas mucosas. Embora o antibiótico seja usado contra o agente causador da doença, ele também pode atingir bactérias que convivem normalmente no organismo.
Com a redução dessas populações, diminui a competição entre os microrganismos. Isso pode abrir espaço para a multiplicação de bactérias resistentes e de fungos, como a Candida. “A nossa microbiota pode mudar selecionando algumas bactérias”, diz o infectologista Pablo Eliack.
A exposição prolongada também favorece a adaptação das bactérias sobreviventes. Elas podem desenvolver mecanismos que dificultam a ação do medicamento e tornam mais limitadas as opções de tratamento caso provoquem uma infecção no futuro.
Tratamentos mais curtos
O trabalho do American College of Physicians indica que, em infecções comuns como pneumonia e infecção urinária, cursos mais curtos podem ter eficácia equivalente à de tratamentos prolongados, com menor risco de danos colaterais.
Pablo Eliack afirma que novas evidências têm levado a protocolos mais enxutos em parte dos casos. A recomendação é seguir o prazo definido na prescrição e não usar antibióticos por conta própria, medidas apontadas como importantes para preservar a eficácia dos medicamentos e o equilíbrio da microbiota.








