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Saúde

Porteiros identificam emergências e ajudam idosos a manter vínculos no condomínio

Relatos mostram como a atenção da portaria pode oferecer apoio sem substituir familiares, cuidadores ou profissionais de saúde.

Porteiros identificam emergências e ajudam idosos a manter vínculos no condomínio
Foto: Hugo Barreto/Metrópoles

A ausência de uma moradora no horário habitual levou dois porteiros a verificar se ela estava bem. Aos 83 anos, Katy Cox havia apenas dormido mais do que de costume, mas a iniciativa de Luiz e de outro funcionário mostrou como a observação da rotina pode funcionar como uma rede informal de apoio para idosos que vivem sozinhos.

Os funcionários telefonaram, interfonaram e bateram à porta. “Achei ótimo que alguém veio ver se eu estava bem”, disse Katy. Em outra ocasião, Luiz percebeu pelas câmeras que ela passava mal na lateral do prédio, chamou o Samu, prestou socorro e a acompanhou de volta para casa.

Apoio sem perda de autonomia

A relação entre moradores idosos e porteiros também aparece em situações cotidianas. Mailde da Silva Cândido, de 76 anos, passou a morar sozinha depois que os três filhos se casaram, o marido e sua ajudante morreram. Ela se mudou para o prédio onde vive a filha, Lidiane da Silva Cândido, de 45 anos, e encontrou nos funcionários uma referência para a nova fase.

Quando se desequilibrou e passou mal, o porteiro Luiz Carlos Barreto, 45, a segurou, acompanhou-a até o apartamento e esperou que ela estivesse bem. Há um ano vivendo sozinha, Mailde passou a descer no meio da tarde para tomar café com a equipe do prédio. “Descobri que, se eu precisar de apoio, não fico sem ajuda”, afirmou.

A atenção pode envolver carregar compras, cumprimentar o morador, perceber uma ausência fora do comum ou notar mudanças no comportamento. Para Otávio Nóbrega, pesquisador da área de Envelhecimento e Longevidade da Universidade de Brasília (UnB), interações breves podem reduzir a sensação de invisibilidade, embora não substituam vínculos afetivos profundos.

“Um bom dia do porteiro, uma conversa rápida no elevador, alguém perguntar se está tudo bem, chamar a pessoa pelo nome ou perceber que ela não apareceu naquele dia são formas de reconhecimento”, afirmou.

Solidão não é consequência obrigatória da idade

Idosos podem morar sozinhos por escolha ou depois de perdas familiares e mudanças na configuração da família. Isso não significa necessariamente solidão ou falta de autonomia. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou, em relatório divulgado em junho de 2025, que um em cada quatro idosos no mundo vive em algum grau de isolamento social e que 11,8% experimentam solidão. Entre as mulheres, o índice é de 13%; entre os homens, de 9,9%.

A fisioterapeuta Isabela Trindade, presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), afirma que a solidão persistente pode levar à redução das atividades, da mobilidade e da independência. Sinais de alerta incluem vazio frequente, afastamento de pessoas, perda de interesse por atividades antes prazerosas, tristeza e irritabilidade persistentes, alteração do sono e menor disposição para sair de casa.

A psicóloga Daiana Meregalli Schütz, autora de uma tese sobre estilo de vida, saúde mental e solidão em idosos durante a pandemia, destaca que o problema não depende apenas de estar fisicamente sozinho. Também é preciso observar quando a pessoa sente que as relações que gostaria de ter não correspondem às que mantém e quando essa desconexão se prolonga.

Um estudo da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, acompanhou a saúde física e mental de 268 homens desde 1938. O psiquiatra Robert Waldinger, que participou da pesquisa, afirma que relacionamentos próximos têm relação com a felicidade ao longo da vida e ajudam a afastar o declínio mental e físico.

Limites para a atuação da portaria

Em junho de 2026, a Prefeitura de Belo Horizonte, em Minas Gerais, colocou em vigor o programa Porteiro Amigo do Idoso. A iniciativa oferece treinamento gratuito e facultativo para funcionários e condomínios, com conteúdo sobre primeiros socorros, comunicação, empatia, vulnerabilidade, violência, maus-tratos e situações de risco.

A proposta é preparar os porteiros para reconhecer mudanças na rotina e oferecer suporte inicial. José Evandro Martins, 50 anos, que trabalha na função há 13, conta que procura moradores idosos quando eles deixam de aparecer no hall por até dois dias.

O cuidado, porém, não transforma o porteiro em cuidador. Isabela recomenda perguntar ao idoso de que ajuda precisa, como agir e quem deve ser chamado. A pessoa deve participar das decisões sobre a própria vida, e a rede de apoio não pode se transformar em vigilância. Não cabe ao funcionário administrar medicamentos, fazer avaliação clínica ou assumir tarefas para as quais não foi preparado.

A experiência de Neusa Antônia Rodrigues, de 67 anos, mostra como esse limite pode conviver com a necessidade de auxílio. Ela vive com dois irmãos; um deles usa cadeira de rodas e faz hemodiálise. Depois que ele caiu, Neusa chamou os porteiros porque não conseguiu levantá-lo sozinha. “À medida que você vai ficando idoso, precisa de um apoio cada vez maior”, afirmou.

Para Lidiane, conhecer a equipe do condomínio há 15 anos ajudou na decisão de levar a mãe para o edifício. A tranquilidade, disse ela, existe “por amor, e não por obrigação”.

Texto produzido pela Redação Janela do Fato com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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