A atualização do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da doença de Crohn ampliou as opções de tratamento para adultos com casos ativos moderados a graves. A mudança inclui ustequinumabe e vedolizumabe para pacientes que não tiveram resposta adequada aos medicamentos anti-TNF, perderam a resposta ao longo do tratamento, apresentaram intolerância ou têm contraindicação a essa classe.
A publicação do protocolo não significa que os medicamentos estarão disponíveis imediatamente em todos os serviços. Segundo Rogério Saad, professor titular de Cirurgia da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp), ainda são necessárias etapas de aquisição, financiamento, distribuição e organização da rede.
O que muda no tratamento
Antes da atualização, uma das possibilidades era substituir um anti-TNF por outro medicamento da mesma classe. Essa estratégia continua prevista em algumas situações, mas o protocolo também permite recorrer a terapias com mecanismos de ação diferentes quando há falha, perda de resposta ou intolerância.
“Eu passo a ter mais opções frente à não resposta a uma primeira medicação”, afirmou Saad. Para ele, a ampliação aumenta as alternativas terapêuticas disponíveis para essa população.
A doença de Crohn é uma inflamação crônica que pode atingir qualquer parte do aparelho digestivo. Intestino delgado, cólon e região perianal estão entre as áreas mais afetadas. O quadro alterna períodos de atividade e remissão, e não existe tratamento clínico ou cirúrgico capaz de curá-lo.
A diarreia é o sintoma mais comum no diagnóstico, seguida por dor abdominal, perda de peso e sangramento intestinal. Febre, palidez, fístulas e fissuras perianais também podem ocorrer. A origem da doença ainda não é totalmente conhecida, mas o protocolo associa o quadro a fatores como alterações genéticas, tabagismo e hábitos alimentares.
Crises e complicações
Júlia Assis começou a ter diarreia em 1997, quando cursava odontologia. Os sintomas persistiram por meses, e o diagnóstico levou mais de um ano. Ela relata que o medo e a falta de informação atrasaram a investigação. “Quando precisei fazer exames de colonoscopia e retossigmoidoscopia eu sumi do consultório por preconceito e falta de informação”, relembrou.
Ao longo dos anos, as crises se agravaram. Júlia chegou a evacuar mais de 30 vezes por dia, usou fraldas, cancelou compromissos e se afastou do trabalho. Em 2002, teve uma perfuração intestinal, ficou 68 dias internada, passou por uma ileostomia e, anos depois, enfrentou outra cirurgia.
As complicações podem incluir estreitamentos e comunicações anormais no intestino. Saad explica que a falta de tratamento adequado pode levar à estenose, que é o fechamento do intestino, ou à fístula, uma comunicação entre partes do órgão.
A trajetória profissional de Júlia também foi alterada. Ela fechou o consultório, deixou o atendimento clínico no SUS e foi aposentada por incapacidade permanente.
Depois de quase 20 anos entre crises e internações, Júlia passou a usar um medicamento imunobiológico e está em remissão. Ela mantém acompanhamento, busca informações sobre a doença e fundou a Associação do Leste Mineiro de Doenças Inflamatórias Intestinais (ALEMDII), voltada ao acolhimento de pacientes e à ampliação do acesso ao diagnóstico e ao tratamento.








