SÃO PAULO — A resposta ao tratamento da deficiência de vitamina B12 não deve ser medida apenas pelo exame de sangue. Um consenso brasileiro recomenda considerar a evolução dos sintomas e, quando necessário, marcadores funcionais como ácido metilmalônico e homocisteína.
O documento foi elaborado por 20 médicos de áreas como hematologia, gastroenterologia, endocrinologia, cirurgia bariátrica e geriatria/neurologia. Os especialistas revisaram estudos, avaliaram afirmações em duas rodadas online e participaram de uma reunião presencial em São Paulo. Uma conclusão foi considerada consensual quando teve a concordância de pelo menos 90% do grupo.
Formas de reposição
As vias oral, sublingual e intramuscular conseguem normalizar os níveis de B12 no sangue de maneira semelhante. O consenso, publicado na eClinicalMedicine, não indica uma dessas opções como superior às demais para a maioria dos pacientes.
Fábio Moura, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e um dos autores, afirma que a escolha pode considerar a necessidade e a preferência do paciente. Em situações urgentes, como neuropatia ou anemia megaloblástica grave, a aplicação intramuscular é a mais indicada por levar a vitamina rapidamente à corrente sanguínea.
A deficiência é mais frequente entre idosos e pessoas que passaram por cirurgia bariátrica. Gastrite atrófica, uso crônico de inibidores de bomba de próton e metformina também podem reduzir a absorção do nutriente. Entre os sinais estão dormência, formigamento, perda de sensibilidade, fraqueza muscular, anemia megaloblástica e confusão mental. A carência ainda pode agravar quadros de depressão e causar alterações neurológicas que se tornam irreversíveis quando o diagnóstico e o tratamento demoram.
Avaliação e valores
A investigação não é indicada como rastreamento de rotina para toda a população. O consenso recomenda atenção especial aos grupos de maior risco. Após a reposição, a expectativa é de desaparecimento dos sintomas em até duas semanas; se isso não ocorrer, outras causas devem ser investigadas.
A Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) considera normais os resultados acima de 300 pg/mL. Entre 200 e 300 pg/mL, o resultado é limítrofe e pode exigir a análise de ácido metilmalônico e homocisteína. Abaixo de 200 pg/mL, é compatível com deficiência.
Segundo Moura, valores abaixo de 300 podem indicar reposição, enquanto resultados entre 300 e 400 com sintomas compatíveis também podem levar ao tratamento. Acima de 400 e 450, a deficiência é considerada muito improvável, com ou sem sintomas. O exame de ácido metilmalônico, apontado como o ideal para avaliar a carência, custa mais de R$ 1 mil.
O consenso também registra que faltam estudos robustos para definir um único esquema aplicável a todos. Até que existam evidências de maior qualidade, as decisões devem ser individualizadas e levar em conta a causa da deficiência, a preferência do paciente, a viabilidade, o acesso e a avaliação clínica.








