Fabricantes de robôs humanoides na China obtêm a maior parte da receita com vendas a centros de treinamento apoiados pelo governo. Esses centros coletam dados durante o treinamento das máquinas e os revendem aos próprios fabricantes, em um modelo que levanta dúvidas sobre a demanda comercial real.
O governo incentivou administrações locais a criar instalações onde humanos ensinam os robôs a executar tarefas físicas por teleoperação. Quase 370 startups de robótica foram criadas nos últimos dois anos, e mais de 50 abriram capital ou se preparam para isso. Até junho, mais de 90 centros de treinamento haviam sido estabelecidos ou estavam em construção no país, segundo a Interact Analysis.
A Unitree, empresa mais acompanhada do setor, avançou mais de 600% depois de estrear em agosto no Star Market, segmento tecnológico da Bolsa de Xangai. A companhia alcançou avaliação de US$ 50 bilhões (R$ 259,6 bi).
Os centros são frequentemente cofinanciados por governos locais e fabricantes. Eles compram robôs, produzem dados de treinamento e os vendem às empresas para aprimorar a tecnologia. Poe Zhao, analista independente de tecnologia chinesa e fundador da Hello China Tech, afirmou que o modelo reduz custos, mas também dificulta separar a demanda independente daquela criada por políticas públicas.
Apenas uma pequena parcela dos dados é vendida a empresas de outros setores, como montadoras. Funcionários dos centros disseram que os principais locais geram mais de 10 milhões de pontos de dados por ano. Um vendedor informou que dados para uma dança de cinco minutos executada por um robô poderiam custar até 1 milhão de renminbi (R$ 768,6 mil).
A Leju Robot, de Shenzhen, informou que os centros responderam por 45% das vendas do humanoide Kuavo no ano passado. A UBTech recebeu 140 milhões de renminbi (R$ 109 mi) em encomendas desses centros em 2025. A empresa disse que as entregas de robôs representaram 41% da receita no ano passado, embora ainda opere com prejuízo.
Quase três quartos da receita da Unitree com humanoides nos primeiros nove meses de 2025 vieram de usuários de educação e pesquisa, incluindo universidades. Analistas afirmam que os vínculos entre governos locais e fabricantes dificultam distinguir compras motivadas por políticas públicas da demanda genuína.
Investidores também questionam a qualidade dos dados. Marco Wang, da Interact Analysis, disse que os dados não seriam "100% úteis" porque os robôs não são usados em ambientes reais. Uma gerente de um centro no norte da China afirmou que, em média, apenas duas ou três horas de um turno de treinamento de oito horas eram aproveitáveis.
O Morgan Stanley elevou sua projeção para os embarques de humanoides na China em 2026, de 28 mil unidades em junho para 50 mil unidades. A estimativa considera compras acima do esperado por governos locais e usuários comerciais.
Defensores do modelo dizem que ele pode fortalecer a robótica e a cadeia de suprimentos, como ocorreu inicialmente com veículos elétricos e painéis solares. Já investidores avaliam que as empresas precisarão demonstrar que os robôs podem ser usados em larga escala nas fábricas para sustentar o crescimento do setor.








