Richard Tice, vice-líder do partido de direita radical Reform UK, afirmou que o ar mais limpo, e não o dióxido de carbono, seria responsável pelo aumento das temperaturas. A afirmação está errada: os gases de efeito estufa continuam sendo a principal causa do aquecimento global. A redução da poluição por enxofre, porém, retirou parte do efeito de resfriamento que vinha mascarando esse aquecimento.
A queima de petróleo e carvão libera dióxido de enxofre, que forma aerossóis de sulfato. Essas partículas refletem parte da luz solar e também alteram as nuvens, tornando algumas mais brilhantes ou prolongando sua duração. Com menos radiação chegando à superfície, o planeta se aquece mais lentamente.
Políticas de combate à chuva ácida reduziram as emissões de enxofre na Europa, na América do Norte e na China. Regras para o setor de navegação também diminuíram essa poluição. Como os aerossóis permanecem na atmosfera por apenas alguns dias ou semanas, o efeito de resfriamento desaparece rapidamente quando as emissões caem.
Um estudo estima que a redução do enxofre elevou em cerca de meio grau o aquecimento do verão no centro-oeste da Europa desde 1980. Piers Forster, da Universidade de Leeds, calcula que a queda da poluição por aerossóis possa acrescentar entre 0,05 °C e 0,1 °C ao aquecimento global por década. Os gases de efeito estufa, porém, acrescentam atualmente cerca de 0,2 °C por década.
Clima mais sensível
Reto Knutti, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, analisou as variações naturais, como o El Niño, para identificar a tendência do aquecimento. “Fica muito claro que a velocidade do aquecimento aumentou”, afirmou. Os três últimos anos foram os mais quentes já registrados, e o Serviço Meteorológico do Reino Unido avalia que 2027 poderá superar 2024 como o ano mais quente da história.
A diferença entre a energia recebida pela Terra e o calor perdido para o espaço é chamada de desequilíbrio energético. Knutti afirma que esse desequilíbrio praticamente triplicou ao longo das últimas duas décadas. Parte do aumento está relacionada à menor quantidade de aerossóis, mas também há mudanças nas nuvens e o aquecimento dos oceanos.
Em algumas regiões oceânicas, o aumento da temperatura reduz a cobertura de nuvens baixas. Como as nuvens refletem a luz e o oceano é escuro, menos nuvens permitem a entrada de mais energia solar, o que amplia o aquecimento. A Organização Meteorológica Mundial afirma que os oceanos se aqueceram com rapidez mais de duas vezes maior nas últimas duas décadas do que entre 1960 e 2005.
Paulo Ceppi, do Imperial College de Londres, considera que esse ciclo entre mudanças climáticas e nuvens é mais importante do que a poluição por enxofre para explicar a redução recente das nuvens baixas. Knutti, no entanto, afirma que ainda não é possível determinar a participação exata de cada fator.
As observações recentes também levantam dúvidas sobre a chamada sensibilidade climática, que mede a reação do clima ao dióxido de carbono. A análise da equipe de Knutti indica que o mesmo volume de emissões poderá produzir cerca de 25% mais aquecimento do que se estimava.
Com as políticas atuais, o mundo caminha para cerca de 2,8 °C de aquecimento até o final do século. Forster afirma que, se as novas evidências forem confirmadas, o mesmo padrão de emissões poderá levar a um aquecimento próximo de 3,5 °C.
Os pesquisadores ressaltam que há incertezas. O registro de satélites é curto, as variações naturais são grandes e os estudos recentes não eliminam as estimativas anteriores. Para Forster, é preciso cautela ao interpretar observações que cobrem uma ou duas décadas.
A retirada da poluição por sulfato contribuiu para a aceleração recente do aquecimento, mas não causa as mudanças climáticas. O fator decisivo continua sendo a emissão de gases de efeito estufa. Quanto maior o aquecimento, maiores os riscos de ondas de calor, enchentes, secas e incêndios florestais.








