SÃO PAULO — A denúncia apresentada pelo Ministério Público de São Paulo estima que uma rede de lavagem de dinheiro movimentou inicialmente R$ 126,8 milhões. O cálculo é considerado conservador pela Polícia Civil e ainda será revisado pelo Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro.
A acusação envolve nove pessoas e descreve operações associadas ao tráfico de drogas, à exploração de jogos clandestinos e a crimes atribuídos a suspeitos que teriam ligação com o PCC (Primeiro Comando da Capital). O documento foi protocolado na última segunda-feira (31).
Como funcionava a operação
Os investigados chamavam o serviço de “compra de dinheiro”. Empresários recebiam grandes quantidades em espécie e realizavam transferências bancárias para pessoas ou empresas indicadas pelos responsáveis pelos valores. As comissões cobradas variavam de 1,5% a 4%.
A Polícia Civil excluiu do cálculo planilhas com divergências aritméticas, registros ilegíveis e programações de pagamento. O Ministério Público informou que a consolidação técnica poderá alterar o valor para mais ou para menos.
A investigação aponta que o grupo atuava em Osasco, Barueri, Itapevi, Carapicuíba e na capital paulista. Ao menos 29 CNPJs de setores como autopeças, aluguel de veículos, embalagens, materiais de construção e softwares educativos são citados na denúncia.
Empresas e apostas
O caso surgiu na Operação Falsa Las Vegas, realizada em maio. A ação bloqueou R$ 6 bilhões em contas ligadas a dezenas de pessoas físicas e jurídicas investigadas. Entre os alvos estavam a Aposte Fácil, credenciada pela Loterj (Loteria do Estado do Rio de Janeiro), e o site clandestino Black Vegas, hospedado no exterior.
Anotações encontradas em dezembro de 2025 na sede da ASX Participações e Tecnologia, em Barueri, faziam referência aos dois negócios e à compra de 150 máquinas de pagamento. Os registros indicavam que a Aposte Fácil compraria o Black Vegas por R$ 1 milhão, em 40 parcelas. ASX e Aposte Fácil tinham Sandro Calliari como sócio em comum.
Calliari afirmou à polícia que a ASX recebia dinheiro de Eduardo Moreno Lopes, conhecido como Tio, com comissão de 3% a 4%. De acordo com relatório policial, ele também disse que os beneficiários dos pagamentos eram indicados por Lopes. Calliari reconheceu as anotações, mas declarou que a compra do site não foi concluída.
Investigados e defesas
Eduardo Moreno Lopes é apontado como coordenador do esquema e está foragido. Mensagens interceptadas e depoimentos citados na investigação indicam que ele controlava a movimentação financeira de empresas acusadas de receber dinheiro sujo.
O relatório policial afirma que “Eduardo era o verdadeiro operador de empresas formalmente registradas em nome de terceiros”. Marcelo Lopes, irmão de Eduardo e diretor da Center Lopes Distribuidora, confirmou trocas de dinheiro vivo por depósitos bancários com o grupo Key Car, também investigado. Ele disse que Eduardo tinha liberdade total para administrar as contas da empresa.
A Center Lopes afirmou que não é investigada nem foi denunciada e que sua receita é lícita e documentada. A empresa citou contratos com órgãos públicos do Estado de São Paulo para locação de viaturas, ambulâncias e outros veículos.
A defesa de Eduardo afirmou que “refuta completamente as acusações” e classificou a investigação como incompleta e parcial. O escritório TFV Advogados também disse que ele exerce atividades empresariais lícitas há mais de 25 anos, nega vínculo com organização criminosa e se ofereceu para prestar depoimento em quatro oportunidades.
As defesas de Calliari e Varlei Ramos da Silva afirmaram que os dois são inocentes e não têm relação com jogos ilegais, organizações criminosas ou lavagem de dinheiro. Os advogados de Calliari disseram que as movimentações atribuídas a ele são lícitas. O advogado de Silva afirmou que a única relação empresarial dele é com a ASX, empresa voltada ao ramo educacional.








