CURITIBA — A Revistaria e Papelaria Alto da XV precisou reduzir a dependência de jornais e revistas para continuar funcionando. Quando a família de José Mainheriche assumiu o negócio, em 2003, as publicações representavam cerca de 80% do faturamento. Hoje, correspondem a menos de 5%.
A loja passou a vender também itens de papelaria, brinquedos, produtos de conveniência e colecionáveis. As figurinhas tiveram destaque durante a última Copa do Mundo: álbuns e cromos elevaram as vendas em mais de 60% por cerca de três meses.
O caso ilustra dois tipos de pressão sobre o comércio de rua. Em bancas e revistarias, a queda da procura por publicações impressas reduziu a demanda pelo principal produto. Em roupas, móveis, eletrodomésticos e eletrônicos, os consumidores continuam comprando, mas podem fazer isso sem visitar uma loja.
Experiência pesa na vulnerabilidade
O comércio eletrônico brasileiro teve crescimento de 86,3% no faturamento em cinco anos. No mesmo período, a manutenção de lojas físicas ficou mais cara, enquanto o endividamento pressionou o orçamento das famílias.
Para Maurício Morgado, professor da Fundação Getulio Vargas e coordenador do Centro de Excelência em Varejo (FGVcev), a necessidade de ver e experimentar um produto ajuda a medir o risco de cada segmento. Livrarias e bancas de jornais e revistas aparecem entre os mais vulneráveis. Papelarias, eletrônicos e eletrodomésticos ficam em uma faixa intermediária; móveis, vestuário e calçados apresentam risco menor.
“O que mais dificulta os negócios de venderem online é a necessidade de ver e experimentar o produto”, afirma Morgado. Tiago Bezerra, sócio-líder do segmento de varejo da Forvis Mazars no Brasil, diz que a tecnologia vem reduzindo a diferença entre a experiência digital e a presencial, inclusive em beleza, vestuário e calçados.
A loja pode virar apenas uma etapa
Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), vestuário, calçados, eletrônicos, informática e pequenos eletrodomésticos enfrentam maior disputa com as vendas online por permitirem comparação de preços e compra sem passagem pelo estabelecimento.
Em eletrônicos e eletrodomésticos, a loja pode funcionar como showroom, enquanto a compra é concluída pela internet. Morgado avalia que esses setores e o de móveis podem precisar de menos pontos físicos, embora os produtos continuem sendo comprados.
Supermercados e farmácias têm uma posição diferente. Bezerra os considera os menos vulneráveis entre os setores analisados, pela frequência e, muitas vezes, pela urgência das compras. Morgado os classifica em uma faixa intermediária. Nas farmácias, um levantamento da Zetti Brasil com 1.600 estabelecimentos registrou alta de 14,7% na receita das vendas online no primeiro semestre de 2026, ante o mesmo período de 2025. As transações digitais cresceram 12,3%.
Digitalização exige integração
Para Tiago Bezerra, pequenos varejistas enfrentam mais obstáculos para migrar ao digital por terem acesso mais limitado a crédito e financiamento. Além disso, a operação precisa integrar loja, site, estoque, marketing, logística, entrega e devoluções.
“Simplesmente criar um e-commerce não resolve problemas de rentabilidade”, afirma Bezerra. Se o cliente comprar pela internet e escolher retirar no estabelecimento, por exemplo, o estoque exibido no site precisa corresponder ao disponível na loja.








