A literatura do Oriente Médio ganha espaço no Brasil com a coletânea Histórias do Centro do Mundo, organizada por Jordan Elgrably. O livro reúne 25 contos de autores ligados a países como Líbia, Irã e Sudão e questiona a predominância da Europa e dos Estados Unidos como referências da literatura mundial.
Publicado em inglês em 2024, o volume chega ao país pela Cosac, em sua estreia na ficção contemporânea médio-oriental. Os textos foram publicados anteriormente na revista literária The Markaz Review. A tradução ficou a cargo de Safa Jubran, do árabe; Felipe Benjamin Francisco, do inglês; Nicolas Voss, do persa; e Marília Scalzo, do francês.
A coletânea percorre um território que vai do Paquistão ao Marrocos e da Turquia ao Sudão. Seus principais eixos são imigração, amor e morte. Muitos personagens vivem longe de seus países de origem, após migrações voluntárias ou deslocamentos provocados por pobreza, guerras e crise climática.
Entre os autores está o egípcio Ahmed Naji, que vive em Las Vegas depois de cumprir um ano de prisão por causa da acusação de indecência relacionada ao livro Usando a Vida. Em Godshow.com, ele narra a busca de um imigrante por uma mesquita no deserto americano.
O marroquino Abdellah Taïa, instalado em Paris, escreve em francês depois de deixar o árabe como língua literária. Em Nadira de Tlemcen, apresenta uma mulher transsexual argelina que se prostitui na Europa e recorda o pai, responsável por lhe dar os primeiros vestidos.
A sudanesa Leila Aboulela nasceu no Cairo, cresceu em Cartum e se mudou para Aberdeen. Seu conto Nunca Abaixe a Cabeça aborda relações familiares às vésperas dos protestos de 2011, conhecidos como Primavera Árabe.
Cotidiano sem clichês
O livro também inclui textos de Omar El Akkad, autor de Um Dia Todos Dirão Terem Sido Contra, sobre a guerra em Gaza, e de Omar Foda, conhecido por seu estudo acadêmico sobre a história da cerveja no Egito.
Embora guerra e geopolítica apareçam nas narrativas, o foco está no cotidiano. Os personagens não são apresentados pelos estereótipos associados ao Oriente Médio, mas como pessoas que tentam atravessar o dia.
A edição traz um mapa dos países representados e um glossário de expressões em árabe, hebraico, persa, turco e urdu. A capa usa a foto de um vendedor de rua marroquino, sem recorrer a imagens orientalistas de pirâmides, esfinges e dunas.








