Um festival no Estádio Nacional, em Santiago, reunirá nos dias 3 e 4 de outubro cerca de 40 artistas ligados à memória e aos direitos humanos. O Muda terá nomes históricos, como o Inti-Illimani, e artistas que surgiram depois da ditadura, entre eles Ana Tijoux, Camila Moreno e Candelabro.
Parte da bilheteria será destinada a antigos centros de detenção e tortura transformados em sítios de memória, com prioridade para os que funcionam sem verba do Estado. O estádio foi usado como campo de prisioneiros nos primeiros meses do regime de Augusto Pinochet.
A programação ocorre em um momento de tensão para esse repertório. José Antonio Kast tomou posse em março deste ano e entregou os ministérios da Defesa e da Justiça e Direitos Humanos a Fernando Barros e Fernando Rabat, ex-advogados de Pinochet. O governo analisa mais de cem pedidos de indulto, em sua maioria apresentados por condenados por crimes de lesa-humanidade cometidos durante a ditadura.
Em setembro, não houve cerimônia oficial pelo aniversário do golpe pela primeira vez desde a retomada da democracia, em 1990. Em abril, um decreto havia reduzido quase 10% do orçamento do Ministério das Culturas e atingido instituições como o Museu da Memória e dos Direitos Humanos e o Museu Violeta Parra.
Repertório que atravessa gerações
A canção de protesto chilena ganhou força durante a campanha de Salvador Allende, em 1970, e sobreviveu ao golpe, ao exílio e às mudanças políticas. No chamado “estallido social”, onda de protestos de 2019, manifestantes cantaram “El Derecho de Vivir en Paz”, de Víctor Jara, e “El Baile de los que Sobran”, lançado pelo Los Prisioneros nos anos 1980.
Para Marisol García, autora de “Canción Valiente”, a tradição continua associada a uma sensibilidade própria da música chilena. “A música política é a música que incomoda um pouco. E é isso que, no fim, transcende”, afirma.
Jorge Coulón, fundador do Inti-Illimani, define o grupo como uma ligação entre diferentes épocas. “Uma ponte entre gerações e uma ponte com a história”, diz.
A influência também aparece fora do Chile. Em janeiro deste ano, manifestantes cantaram “El Pueblo Unido Jamás Será Vencido”, do Quilapayún, em protestos contra a polícia anti-imigração de Donald Trump em Minneapolis. Bad Bunny apresentou “El Derecho de Vivir en Paz” no Estádio Nacional, em Santiago.
Artistas mais jovens retomam o rock e temas de história, desigualdade e memória. O Candelabro, formado em Santiago em 2021, é apontado por Javier Sanfeliú como parte desse movimento. Eduardo Pavez, vocalista do Tenemos Explosivos, afirma que a transmissão entre gerações continua porque o país ainda busca se emancipar de uma condição que chama de “mentalmente colonizado”.
Para Pavez, festivais como o Muda reabrem perguntas sobre o passado e o futuro da música política. A memória, diz ele, permanece urgente, assim como a necessidade de preservar a esperança.








