BRASÍLIA — As mudanças provocadas pelo tempo em quatro eleitores são o centro de “Tudo é Tempo”, documentário de Marcos Guttmann exibido na segunda (14) no Festival de Brasília. O filme acompanha pessoas registradas inicialmente durante o primeiro governo Lula e reencontradas anos depois, quando suas opiniões e suas vidas haviam tomado rumos diferentes.
Entre os personagens estão Carlos Ibrahim, Cristiane Rosa, Fernando Pereira e Heber Cunha. O grupo foi escolhido pelo diretor durante a eleição presidencial de 2002, entre eleitores de uma mesma seção do Colégio Pedro 2º, no Rio de Janeiro.
Fernando, conhecido como Nando, vive na Cidade de Deus, passou por diferentes trabalhos e mantém ligação constante com o samba. Cristiane é médica infectologista. Heber é poeta e revê posições ao longo do documentário. Carlos Ibrahim, filho do líder sindical José Ibrahim, tem a relação mais direta com a militância e a política.
As filmagens começaram em 2002 e avançaram pelo primeiro governo Lula, mas o projeto foi interrompido. Guttmann disse que tentou obter recursos para continuar ou concluir o filme, sem sucesso. Anos mais tarde, voltou a procurar os mesmos personagens.
“O tempo é o eixo central do filme”, afirmou o diretor. Segundo ele, a obra trata a memória sem uma organização linear e evita o uso tradicional de flashbacks. O intervalo permitiu registrar não apenas o envelhecimento dos participantes, mas também a permanência ou a mudança de suas convicções.
Um país sob vigilância
Exibido na noite desta terça-feira (15), “Todo o Sentimento”, de Ary Rosa e Glenda Nicácio, parte de uma hipótese política: a tentativa de ruptura institucional após a eleição de 2022 teria sido bem-sucedida. O resultado é um Brasil governado por uma ditadura, no qual a vigilância integra a rotina.
O cineasta Henrique, interpretado por Aldri Anunciação, está isolado em uma casa colonial no Recôncavo Baiano. A chegada de Gustavo, vivido por Lucas Leto, força o personagem a deixar parcialmente esse recolhimento.
A produção não apresenta um futuro marcado por invenções extraordinárias. A arquitetura e as estruturas sociais continuam reconhecíveis. Henrique já havia aparecido em “Ilha”, filme da dupla lançado em 2018. Naquele ano, Anunciação recebeu o prêmio de melhor ator, e Rosa e Nicácio venceram na categoria de roteiro no Festival de Brasília.
Rosa afirmou que o personagem precisava ser colocado em outro contexto. Nicácio contou que o projeto ficou engavetado por anos e chegou a parecer inadequado diante das mudanças políticas. “De repente, numa reviravolta, não mais que de repente, é o Brasil de novo”, disse a diretora.
Enquanto Guttmann observa o que aconteceu com pessoas reais, Rosa e Nicácio imaginam o país em uma realidade autoritária. Os dois filmes tratam da política por caminhos distintos: um acompanha memória, contradições e transformações; o outro retoma Henrique em um Brasil submetido à repressão.








