Relatoras de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) cobraram do Irã explicações sobre o confisco da Igreja Evangélica de São Pedro, em Teerã, e a expulsão de cristãos armênios e assírios que viviam no complexo havia décadas. Até agora, o governo iraniano não respondeu.
A comunicação formal foi enviada em 10 de julho por Mai Sato, relatora especial sobre a situação dos direitos humanos no Irã, e Nazila Ghanea, relatora especial sobre liberdade de religião ou crença. O documento se tornou público 60 dias depois, conforme os procedimentos da ONU.
Igreja fechada e famílias expulsas
Inicialmente, as relatoras questionaram a ameaça de confisco do complexo e a ordem para que 27 integrantes das comunidades cristãs armênia e assíria deixassem suas casas. Também registraram ter recebido informações sobre ameaças de prisão contra líderes da igreja.
Desde o envio da comunicação, a medida foi executada. O complexo foi confiscado, as famílias foram retiradas das residências e a igreja foi fechada à força. Guardas do regime iraniano foram posicionados no local para impedir o retorno dos fiéis.
“Essas medidas privaram uma comunidade de longa data tanto de suas casas quanto de seu local de culto”, afirmaram Sato e Ghanea. Para as especialistas, as expulsões forçadas são incompatíveis com o direito internacional dos direitos humanos.
Localizado no centro de Teerã, o complexo reúne a igreja, residências, duas escolas e escritórios do Conselho de Igrejas Evangélicas do Irã e da Sociedade Bíblica. Fundada no século 19, a Igreja de São Pedro atendia principalmente às comunidades cristãs armênia e assíria.
Disputa sobre o imóvel
A tomada do complexo se baseia em uma decisão de um Tribunal Revolucionário de 1998, que determinou a transferência do imóvel para a Execução da Ordem do Imã Khomeini (EIKO), organização ligada ao gabinete do líder supremo do Irã. O Sínodo das Igrejas Evangélicas do Irã, responsável pelo imóvel, teria tomado conhecimento da ordem apenas em 2008.
Organizações cristãs que acompanham o caso afirmam que o regime impedia, desde 1980, a renovação do registro legal do sínodo. As relatoras pediram explicações sobre a base jurídica da decisão e sobre os obstáculos à regularização da entidade.
Elas também questionaram a situação da Sociedade Bíblica do Irã, que mantinha escritórios no complexo e está fechada desde 1990. A organização publicava e distribuía Bíblias e outros materiais cristãos em persa.
A ONU relacionou o episódio a medidas contra propriedades de igrejas em Tabriz, Mashhad, Gorgan e Karaj. As relatoras afirmaram que o Irã já teve cerca de 50 igrejas protestantes com cultos em persa, mas atualmente praticamente nenhuma oferece serviços religiosos no idioma. As três igrejas anglicanas autorizadas a pregar em persa, em Teerã, Isfahan e Shiraz, não receberam permissão para reabrir após a pandemia de Covid-19.








