SÃO PAULO — A produtora Karina Ferreira da Gama é alvo da Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (10). A investigação apura possíveis desvios de emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade presidida por ela desde 2014, e também examina o financiamento do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
Karina nasceu na Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, e iniciou sua atuação com produção e divulgação de eventos para igrejas e projetos de literatura cristã. O Instituto Conhecer Brasil foi fundado em 1990 e começou promovendo eventos literários ligados à comunidade evangélica, com recursos de emendas de vereadores da capital.
A aproximação de Karina com a política ocorreu em 2020, quando conheceu Mário Frias, então secretário Especial de Cultura no governo de Jair Bolsonaro. Em 2022, a empresa GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural, ligada a Karina, recebeu R$ 54 mil por serviços prestados à campanha eleitoral de Frias.
No ano seguinte, já deputado federal, Frias destinou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil para projetos sociais no interior de São Paulo. A Operação Make Up investiga o suposto desvio desses recursos. Frias, produtor executivo de “Dark Horse”, negou irregularidades nos repasses.
Contratos em São Paulo
O Instituto Conhecer Brasil passou a firmar contratos com a Prefeitura de São Paulo em 2018. Naquele ano, recebeu R$ 2,5 milhões da Secretaria Municipal da Cultura para realizar o “Encontro Literário IDE”, voltado a escritores gospel. O evento contou com emendas de quatro vereadores da capital.
Em 2024, o instituto foi a única entidade a participar de um chamamento público da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia para instalar 5 mil pontos de Wi-Fi em áreas periféricas da cidade. O contrato, inicialmente estimado em R$ 108 milhões, chegou a R$ 157,1 milhões após três aditivos.
Segundo investigadores, 3,2 mil pontos haviam sido instalados até o momento, embora o prazo inicial previsse a instalação dos 5 mil em até 12 meses. O Ministério Público e a Polícia Civil de São Paulo investigam a contratação, a capacidade técnica do instituto, os valores pagos e a execução dos serviços.
A Prefeitura de São Paulo contesta parte das conclusões. A gestão Ricardo Nunes afirmou que não pagou R$ 157,1 milhões ao ICB e que os repasses correspondem aos pontos instalados e mantidos. Também declarou que o chamamento ficou aberto por 30 dias, que o instituto cumpriu os requisitos e que as ressalvas do Tribunal de Contas do Município foram corrigidas.
Produção do filme
Karina é dona da Go Up Entertainment, responsável por “Dark Horse”. A empresa funciona no mesmo endereço do Instituto Conhecer Brasil e da GO7. A Polícia Federal também investiga os recursos destinados ao filme, sob relatoria do ministro André Mendonça. A apuração analisa repasses feitos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, a pedido de Flávio Bolsonaro, e a destinação do dinheiro.
Karina afirmou que sua participação se limitou à prestação dos serviços de produção e que desconhecia os financiadores do fundo Havengate. Sobre as emendas de R$ 2 milhões, disse que o saldo não utilizado permanecia em caixa e que os projetos estavam em andamento. Também declarou ter entregue mais de 20 mil páginas à Polícia Federal antes da operação.
A defesa apresentou uma reclamação constitucional ao Supremo Tribunal Federal. O advogado Ricardo Sayeg afirmou que a medida busca garantir o cumprimento de decisões da Presidência do Supremo e a competência do juiz natural, sem questionar o mérito da investigação.








