MARINGÁ — Tatiana Vanessa Soria continua votando no PT desde 2002, enquanto Juliane Souza, que também participou de uma propaganda eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, não pretende escolher novamente o presidente. As duas estiveram na gravação feita em uma plantação de trigo no Paraná, mas seguiram trajetórias políticas diferentes.
Tatiana tinha um bebê, Rafael, nos braços durante a filmagem. Aos 48 anos, é bióloga, mestre, doutora e professora da rede estadual do Paraná. Ela se filiou ao PSOL depois de participar de cursos de formação política e estudar autores marxistas. A decisão ocorreu após críticas à condução de Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid.
Hoje, Tatiana mantém pouco contato com o partido, mas ainda considera o PT a força eleitoral com maior possibilidade de vitória e mais próxima de suas ideias. Em sala de aula, estimula os alunos a verificar informações e analisar propostas. “Eu não quero que eles pensem como eu. Só quero que eles pensem”, afirma.
A participação no comercial também se relacionou à trajetória educacional de sua família. Entre 2014 e 2015, Tatiana fez um doutorado-sanduíche nos Estados Unidos pelo programa Ciência sem Fronteiras, criado no governo Dilma Rousseff. A bolsa financiou um ano de estudos no exterior; nesse período, Rafael frequentou uma escola americana e aprendeu inglês.
Depois do ensino médio em uma escola pública de Maringá, Rafael, aos 18 anos, entrou em uma universidade pública em outra cidade. Para Tatiana, o caminho do filho reforça a importância que atribui à educação e confirma sua avaliação positiva do voto em Lula em 2002.
Da esperança à dúvida
Juliane Souza tinha 26 anos e estava grávida de Gabriela quando foi chamada pela agência que a representava. Ela não era militante, mas se emocionou com a produção e votou em Lula naquele ano. Mais de duas décadas depois, aos 49 anos, trabalha como motorista de aplicativo em Maringá e não pretende votar novamente nele.
Juliane afirma que a aprovação ao presidente durou apenas “dois ou três anos”. Ela também pondera que as mudanças em sua vida não podem ser atribuídas somente aos governos. Em 2008, ficou viúva e precisou voltar ao mercado de trabalho. Durante a pandemia, com menos passageiros, entregou máscaras produzidas pela mãe e transportou pacientes para tratamentos em Curitiba e São Paulo.
Os três filhos chegaram ao ensino superior. Gabriela, que estava na barriga da mãe durante a gravação, tornou-se publicitária. A filha mais velha é biomédica, e o caçula cursa análise e desenvolvimento de sistemas. Gabriela, aos 23 anos, diz que a família nunca passou fome, mas enfrenta insegurança financeira.
Mãe e filha acompanham nomes como Renan Santos e Ronaldo Caiado, mas ainda não decidiram o voto. Elas procuram uma alternativa à polarização política.
O comercial
A peça foi exibida no início de outubro de 2002, semanas antes de Lula vencer pela primeira vez a eleição presidencial. Cerca de 50 pessoas participaram da produção, entre modelos, mães e crianças. Algumas mulheres usavam barrigas de espuma.
O grupo caminhava por um campo de trigo ao som de “Bolero”, de Maurice Ravel. Na sequência, Chico Buarque perguntava que país os eleitores queriam deixar para a próxima geração e encerrava a propaganda com a frase: “Se você não muda, o Brasil também não muda”.
O publicitário Duda Mendonça, responsável pela campanha, criou o filme para suavizar a imagem de Lula, que concorria à Presidência pela quarta vez. A estratégia defendia a conciliação, a aproximação ao centro e a ideia de que a esperança venceria o medo.
José Dirceu, coordenador da campanha, disse que a comunicação buscava substituir mensagens negativas por emoção e uma perspectiva de futuro. O filme foi organizado em torno da família, da mulher e do futuro do país.
Com José Alencar como vice, Lula venceu o primeiro turno e, em 27 de outubro, derrotou José Serra com 61,3% dos votos válidos. Tornou-se o primeiro presidente eleito pelo PT.
Outra participante, uma empresária de Maringá que não quis ser identificada, afirma nunca ter tido vínculo com o partido e avalia que o país piorou sob administrações petistas. Já L., que tinha dois anos e aparecia no colo da mãe, estudou em escolas públicas, obteve bolsa integral do Prouni e diz que a família se estabilizou com acesso a programas sociais. Hoje, identifica-se com ideias de centro-esquerda e vê Lula como a opção “menos pior”.








