A Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal o compartilhamento integral de informações financeiras preservadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras em razão do envolvimento de autoridades com foro por prerrogativa de função. A solicitação foi protocolada em março de 2026 e ainda não tinha decisão conhecida publicamente quando parte do sigilo do caso Master foi retirada neste mês.
O pedido foi encaminhado ao ministro André Mendonça, então relator do caso. A Procuradoria-Geral da República afirmou que não havia sido informada sobre a existência da solicitação e, neste mês de setembro, pediu esclarecimentos ao gabinete do ministro sobre a tramitação e eventual decisão.
A estimativa é de que os dados preservados envolvam quase 40 pessoas, entre integrantes do STF, deputados, senadores e autoridades ligadas ao Executivo. O caso está atualmente sob relatoria do presidente do STF, Edson Fachin, que ainda não se manifestou sobre a divulgação das informações relacionadas às quebras de sigilo.
Diferença entre os dados
A representação da PF trata de comunicações financeiras que teriam sido omitidas de um Relatório de Inteligência Financeira do Coaf. As informações estão relacionadas a movimentações na rede financeira associada a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e a operações envolvendo Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro.
O relatório divulgado parcialmente registraria R$ 57 milhões em movimentações entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025. Desse total, R$ 19 milhões teriam sido lançados por empresas ligadas a Zettel. A estimativa da investigação é de que os valores envolvidos possam se aproximar da casa de bilhão ou bilhões.
O constitucionalista André Marsiglia explicou que não devem ser confundidas as informações de inteligência financeira do Coaf, a quebra judicial de sigilo bancário ou fiscal e os dados obtidos em buscas, apreensões ou exames de celulares.
O criminalista Márcio Nunes afirmou que mais de 160 arquivos do caso permanecem sob sigilo. Por isso, segundo ele, não é possível afirmar categoricamente que os sigilos bancários e fiscais de determinadas autoridades tenham sido efetivamente quebrados enquanto não houver decisão judicial divulgando essas informações.
Medidas já realizadas
O STF determinou que quebras de sigilo bancário e fiscal sejam mantidas sob reserva em determinados procedimentos do caso. André Mendonça retirou o sigilo de parte dos documentos, mas manteve protegidos dados cuja divulgação poderia comprometer diligências em andamento ou envolver informações bancárias e fiscais.
A investigação também reúne buscas, apreensões, medidas cautelares e monitoramento telefônico envolvendo autoridades com foro. Essas providências, porém, não comprovam por si só que tenha ocorrido análise de contas bancárias e declarações fiscais pessoais.
Ciro Nogueira foi alvo da quinta fase da Operação Compliance Zero, em maio de 2026. A ação incluiu busca e apreensão em sua residência, com recolhimento de celular, tablet e documentos. A PF suspeita que o senador tenha recebido vantagens de Vorcaro e atuado em assuntos de interesse do Banco Master no Congresso. A defesa nega as acusações.
Jaques Wagner foi alvo de mandado de busca e apreensão na nona fase da operação, em junho. Foram apreendidos dinheiro e outros bens em endereços ligados ao senador. A documentação pública registra buscas, medidas cautelares, monitoramento telefônico e bloqueio patrimonial, mas não permite confirmar a análise de contas bancárias e declarações fiscais pessoais.
Nunes afirmou que o foro por prerrogativa de função não impede uma quebra de sigilo, mas exige que a medida seja submetida ao tribunal competente. Ele citou decisões do STF em 2007, 2016 e fevereiro de 2024 envolvendo Renan Calheiros, Waldir Maranhão e André Janones, respectivamente, sem relação com o caso Master.








