O governo Luiz Inácio Lula da Silva avalia que a decisão dos Estados Unidos de acusar o Brasil de falhar no combate ao PCC e ao Comando Vermelho é uma estratégia eleitoral calculada de Donald Trump, com baixo custo político. As duas facções foram classificadas pelos norte-americanos como “terroristas”.
A avaliação no Planalto é que endurecer contra grupos criminosos pode ter mais impacto no eleitorado brasileiro do que aplicar novamente a Lei Magnitsky contra ministros do Supremo Tribunal Federal. Uma nova sanção baseada na crise do STF também poderia ser interpretada como interferência dos Estados Unidos no Judiciário e na soberania brasileira, facilitando a reação do governo Lula.
A possibilidade de novas medidas contra integrantes do Supremo ganhou força após mensagens entre Alexandre de Moraes, primeiro ministro do STF sancionado pela lei americana em 2025, e Daniel Vorcaro. O cenário perdeu força após a divulgação de mensagens que também mostraram relações de Vorcaro com André Mendonça e Kassio Nunes Marques.
O Planalto considera que Donald Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio, têm percepção negativa entre os eleitores brasileiros. Para o governo, novas tentativas de interferência poderiam beneficiar Lula. Ao mesmo tempo, pesquisas indicaram apoio à classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.
Em junho, levantamento da Genial/Quaest mostrou que 60% dos entrevistados defendiam a adoção dessa classificação pelo governo brasileiro, enquanto 45% concordavam com a decisão dos Estados Unidos. O PoderData registrou 53% de avaliações positivas sobre a medida norte-americana.
Relatório e resposta do governo
O relatório anual enviado pela Casa Branca ao Congresso foi divulgado na 3ª feira (15.set.2026). O documento afirma que o governo Lula falhou no confronto às duas facções e diz que elas transformaram o Brasil em um “centro para o fluxo global de cocaína”. O texto pede ação urgente, embora não classifique o Brasil como produtor ou rota de drogas.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou na 4ª feira (16.set) que o documento ignora a cooperação entre Brasil e Estados Unidos e rejeitou a existência de falhas no enfrentamento ao crime organizado transnacional. A pasta citou a Lei Antifacção e o Programa Brasil contra o Crime.
O governo também afirma que entregou a Trump, em Washington, uma proposta de combate ao crime organizado que não recebeu resposta. Na avaliação do Planalto, há incoerências na lista americana: a Venezuela deixou de aparecer depois de ser tratada como narcotraficante até o ano passado, enquanto Cuba também deixou de ser citada.
Lula e Trump tiveram 7 contatos desde o início das negociações, sendo 4 telefonemas e 3 encontros. Lula embarca no domingo (20.set) para Nova York e discursará na 3ª feira (22.set), na abertura do Debate Geral da Assembleia Geral da ONU. Trump falará logo depois. Não há pedido de reunião bilateral entre os presidentes.
O discurso de Lula deve durar cerca de 20 minutos e abordar paz e segurança, multilateralismo, clima, direitos humanos e combate ao crime organizado. A soberania e a democracia brasileiras também devem ser mencionadas, sem referência direta a Trump ou aos Estados Unidos.








