A pandemia da Covid-19 foi associada a um aumento real de transtornos psiquiátricos, além de sintomas passageiros. O Global Burden of Disease estimou alta de cerca de 28% nos casos de depressão e de 26% nos transtornos de ansiedade em 2020, segundo o psiquiatra Eduardo Perin, especialista em terapia cognitivo-comportamental (TCC).
Pessoas que tiveram Covid também apresentaram maior risco de desenvolver ansiedade, depressão e distúrbios do sono no ano seguinte, de acordo com estudos citados por Perin.
O que mudou nos diagnósticos
O crescimento das estatísticas, porém, não representa apenas uma piora na saúde mental. Maior reconhecimento dos sintomas, busca por tratamento, redução do estigma e mudanças nos critérios diagnósticos também ampliaram a identificação de casos.
Entre jovens de 10 a 24 anos, estudos indicam que a prevalência de transtornos mentais aumentou cerca de 6,8% entre 1990 e 2021. No mesmo período, a depressão teve alta de aproximadamente 22,5%, afirma Perin.
O psiquiatra Raphael Boechat, da Universidade de Brasília (UnB), cita o autismo como exemplo de condição cujo diagnóstico passou a abranger mais pessoas depois da definição de espectro autista. Para ele, a ampliação das categorias não significa necessariamente crescimento real dos casos.
Boechat também diferencia sofrimento individual de transtorno mental diagnosticável. Testes e escalas podem auxiliar na avaliação, mas não foram criados para confirmar diagnósticos isoladamente e podem produzir falsos positivos quando usados sem outros elementos.
Redes sociais e grupos mais expostos
O uso intenso de redes sociais, o aumento do tempo online e a redução da interação presencial podem agravar sintomas. A exposição excessiva é apontada por Boechat como um fator de intensificação dos problemas de saúde mental.
Jovens, mulheres, pessoas com histórico de transtornos e indivíduos em situação de vulnerabilidade social estão entre os grupos mais afetados. Isolamento, insegurança financeira, desemprego, violência, dificuldade de acesso a tratamento, pressão social, ambiente digital e cyberbullying aparecem entre os fatores relacionados ao cenário.
No fim de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que mais de 1 bilhão de pessoas viviam com transtornos mentais no mundo. Perin afirma que os sintomas estão surgindo cada vez mais cedo, o que gera preocupação sobre seus efeitos ao longo da vida.








