LONDRES E KIEV — Sistemas de inteligência artificial reduziram de 20 minutos para segundos o tempo entre identificar e atacar um alvo na guerra da Ucrânia. A tecnologia é usada para analisar dados, priorizar alvos, manter drones em voo sob interferência de sinal e orientar ataques.
O Saker Scout, desenvolvido pela empresa ucraniana Twist Robotics, reconhece 47 categorias de equipamento militar. Antes do lançamento, o operador define os alvos prioritários, o nível mínimo de confiança e uma área em que tudo é considerado alvo. Dentro desse espaço, o drone pode buscar, identificar e atacar sem novo comando humano.
O sistema, porém, não diferencia equipamentos ucranianos de russos. Ele presume que todo objeto militar na área pertence ao inimigo. Rostyslav Olenchyn, da Twist Robotics, afirma que o uso exige certeza de que não há civis nem integrantes da própria força.
Uso militar e limites operacionais
Ferramentas como o Delta, da Ucrânia, e o Maven, dos Estados Unidos, transformam imagens de satélites, drones e sensores em informações para os militares. Um funcionário de inteligência americano afirmou que o Maven ajudou a elevar o número de alvos atingíveis por dia de menos de 100 para 1.000 e, com modelos de linguagem, até 5.000.
Ataques totalmente guiados por IA ainda são raros. Oleksii Babenko, fundador da Vyriy Drone, estima que representem cerca de 2% dos drones. A Ucrânia afirma que, desde 2026, esse tipo de operação aumentou dez vezes. A navegação autônoma também permite que drones façam ajustes diante do vento e alcancem alvos em movimento a até 300 km/h, segundo Kateryna Bondar, do Center for Strategic and International Studies.
A Rússia ampliou o uso de drones Shahed equipados com IA. Em julho, um ataque autônomo contra um posto de gasolina matou três pessoas. Shaheds com mira por IA também atacaram navios ucranianos no Mar Negro.
Apesar do ganho de velocidade, especialistas dizem que a tecnologia não deu vantagem decisiva a nenhum dos lados. Olivier Schmitt, do Royal Danish Defence College, aponta uma diferença entre a rápida mudança no nível tático e a paralisação da campanha, sem rompimento das linhas de combate.
Risco de erros e responsabilização
Sistemas de IA têm dificuldade para interpretar situações ambíguas, como posições misturadas, camuflagem, roupas semelhantes a uniformes e veículos civis. A iluminação também pode levar uma máquina a confundir um veículo civil com um militar.
No confronto entre os Estados Unidos e o Irã, sistemas de IA ajudaram os americanos a atingir 13.000 alvos em 38 dias. Entre eles estava uma escola feminina, onde mais de 150 pessoas morreram, incluindo 120 crianças. Anthony King, da Universidade de Exeter, afirmou que o caso mostrou o risco de sistemas baseados em correlação estatística quando os dados estão errados ou desatualizados.
Na campanha de bombardeios de Israel em Gaza, especialistas também questionaram o uso de IA na geração de alvos. Jessica Dorsey, da Universidade de Utrecht, afirmou que o tempo reduzido para avaliar os alvos dificulta garantir que eles sejam militares legítimos, como exige a lei.
A Anthropic diz que os modelos mais avançados ainda não são confiáveis o suficiente para selecionar e atacar alvos de forma autônoma. Em relatório divulgado neste mês, a empresa informou que atores não estatais usaram o Claude para criar armas, entre elas um enxame de drones capaz de explodir sem supervisão ao atacar pessoas.
O avanço da tecnologia mantém em aberto a capacidade de governos e empresas de IA de estabelecer limites para o uso militar desses sistemas.








