A região do Hindu Kush-Himalaia abriga mais de 63,7 mil geleiras, mas ainda enfrenta limitações para detectar colapsos e avisar comunidades localizadas rio abaixo. Pesquisadores defendem a integração de dados de satélite, atividade sísmica, geleiras, encostas, rios e previsões meteorológicas para reduzir os riscos de inundações repentinas.
O alerta ganhou força após o colapso de uma geleira no Nepal e no Tibete na semana passada. O episódio provocou um fenômeno conhecido como tsunami de montanha, deixou milhares de pessoas desaparecidas e dadas como mortas e gerou atividade sísmica equivalente a uma magnitude de cerca de 5,2. O fluxo de detritos ricos em água percorreu aproximadamente 100 quilômetros pelo sistema fluvial.
Sistemas de detecção
Levan Tielidze, pesquisador em geomorfologia glacial da Universidade Monash, na Austrália, afirma que as montanhas do Himalaia reúnem geleiras, neve, permafrost, encostas rochosas, rios e processos de monção em transformação simultânea. Para ele, a combinação de observações e alertas automatizados pode oferecer “minutos preciosos de aviso prévio” em eventos de evolução rápida.
A falta de sistemas de alerta precoce deixou moradores e turistas expostos às enchentes repentinas no episódio recente. No caso do colapso glacial que destruiu a vila de Blatten, na Suíça, em 2025, o monitoramento da deformação da geleira e do terreno permitiu a retirada da população antes da catástrofe. O evento resultou em uma única morte.
A aplicação desse modelo é mais difícil no Hindu Kush-Himalaia. Além da extensão da região, os riscos atravessam fronteiras, o que exige cooperação entre países na preparação para desastres, segundo Dipesh Chapagain, cientista sênior do Instituto de Meio Ambiente e Segurança Humana da Universidade das Nações Unidas.
Geleiras menores e eventos mais frequentes
A ONU informou que as geleiras das montanhas nepalesas encolheram um terço em 30 anos. Pesquisas citadas no levantamento indicam que a área mais ampla do Hindu Kush-Himalaia poderia perder até metade de sua cobertura glacial até o fim do século, em comparação a 2020, mesmo em um cenário no qual o aquecimento global não ultrapassasse 2°C em relação ao período pré-industrial.
O derretimento pode formar lagos glaciais que, ao romperem, provocam enchentes extremas. O número desses episódios por década aumentou cinco vezes desde os anos 1950. O colapso no Nepal e no Tibete teve semelhanças com esse tipo de ocorrência, mas não passou pela formação de um lago: a inundação foi desencadeada diretamente.
Há quase 25 anos, uma geleira caiu sobre outra nas montanhas do Cáucaso. Avalanches de gelo e detritos percorreram mais de 24 quilômetros e mataram cerca de 125 pessoas. Para Tielidze, o episódio foi um alerta sobre a frequência e a gravidade potencial dos riscos associados às geleiras.
A ONU alertou nesta quarta-feira (2) que as temperaturas globais devem ultrapassar o limite de 1,5°C nos próximos anos. O cenário, segundo a organização, tende a intensificar eventos climáticos extremos e a pressão sobre ecossistemas, geleiras e cidades costeiras de baixa altitude.







