Mudanças no clima e na ocupação do solo estão associadas à expansão da febre hemorrágica argentina (FHA) para áreas urbanas da Argentina. A doença é transmitida por roedores e pode causar hemorragias internas, convulsões e coma.
Uma mulher de 65 anos que morava no centro de Rosário morreu após apresentar febre alta, dores musculares e cansaço. Exames apontaram níveis muito baixos de glóbulos brancos e plaquetas. O caso chamou a atenção porque ela não era agricultora, perfil historicamente associado à enfermidade.
Aumento de casos e mudança no perfil
As autoridades de saúde argentinas registraram quase 60 casos confirmados de FHA em 2022, cerca de três vezes o número de cinco anos antes. Surtos ocorridos em 2024 e 2025 mataram pelo menos nove pessoas.
Desde a identificação da doença, na década de 1950, os casos se concentravam principalmente entre trabalhadores rurais do sexo masculino nas planícies férteis argentinas, fora das áreas urbanas. Um motorista de caminhão testou positivo em 2025, e moradores sem ligação com o campo também foram infectados.
María Dolores Lucena afirmou que houve aumento recente em San Nicolás de los Arroyos, município portuário nos arredores de Rosário. Segundo ela, a cidade avançou em direção ao porto, ao rio e a áreas antes rurais, com condomínios fechados próximos a campos abertos.
A veterinária Marcela Uhart, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Davis, relatou que a FHA era considerada um problema generalizado na Argentina nas décadas de 1970 e 1980. O lançamento de uma vacina ajudou a reduzir os casos na década de 1990. Tratamentos com plasma reduziram a mortalidade de até 30% para 1% entre pacientes atendidos imediatamente.
Clima, roedores e outras doenças
Pesquisadores estudam como a temperatura, a precipitação e os padrões sazonais alteram a distribuição dos roedores que carregam arenavírus sul-americanos. Modelos criados em abril buscaram estimar o risco para as pessoas a partir dos deslocamentos desses animais.
As mudanças climáticas podem levar roedores a novas áreas e aproximar espécies que antes viviam separadas. A agricultura, a urbanização e a degradação ambiental também aumentam o contato entre pessoas e animais portadores de doenças.
Um estudo de 2022 estimou que mais da metade das doenças patogênicas conhecidas que afetam seres humanos poderia ser agravada pelas alterações no clima. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA afirma que cerca de três quartos das doenças infecciosas emergentes em humanos provêm de animais.
Pranav Kulkarni, pesquisador da Universidade da Califórnia em Davis, disse que a ampliação da presença humana em novas áreas pode favorecer a disseminação de enfermidades. Para ele, doenças transmitidas por vetores, animais ou roedores podem representar uma ameaça futura.
A dengue, a chikungunya e a febre amarela também avançaram para novos países e regiões nos últimos anos. Desde o início de 2024, mais de dez milhões de casos de dengue e mais de 16 mil mortes relacionadas foram relatados à Organização Mundial da Saúde.








