A produção de pimenta chili em Kunri, no sudeste do Paquistão, enfrenta uma combinação de calor extremo, chuvas imprevisíveis, inundações e custos maiores. A região concentra mais de 85% da produção paquistanesa e responde por mais de 200 toneladas vendidas diariamente no mercado local durante a temporada após a colheita.
A cidade, na província de Sindh e com 25 mil habitantes, é conhecida pelo cultivo que sustenta gerações de agricultores. Em novembro passado, após uma colheita bem-sucedida, montes de pimentas com mais de 2,4 metros de altura atraíram centenas de produtores e compradores. Neste ano, porém, o calor impediu o plantio até março, e muitos agricultores tiveram de rever o calendário.
Ahsan Ali Dars, produtor de Kunri, começou a semear em março em anos anteriores, antecipando o desenvolvimento das plantas para enfrentar as temperaturas mais altas do verão. Como o início do ano estava quente demais, ele adiou o plantio para maio. A mudança encurtou o período de cultivo e deixou as mudas mais expostas ao estresse térmico.
No fim de julho, as primeiras chuvas das monções chegaram às plantações. Dars passou a usar mais fertilizante para tentar manter as plantas vivas até a colheita, prevista para começar em setembro, mas também passou a lidar com o risco de precipitações excessivas. “Se chover demais, a lavoura será destruída”, disse. “Se não chover, também será desastroso.”
Perdas no campo e na secagem
A agricultura representa quase um quarto da economia do Paquistão e emprega metade da força de trabalho. O país tem mais de 250 milhões de habitantes e está entre os mais vulneráveis do mundo à mudança climática.
As inundações de 2022 destruíram quase 1,8 milhão de hectares de terras agrícolas. Agricultores de Sindh e da vizinha Punjab, considerada o celeiro agrícola do país, ainda relatam efeitos do desastre. Ondas de calor e enchentes vêm se alternando, com impacto maior sobre pequenos produtores que enfrentam dificuldade para absorver o aumento dos custos.
A secagem também se tornou mais arriscada. Depois da colheita, em setembro, as pimentas são espalhadas no chão por 10 dias. A umidade pode favorecer o surgimento de fungos e comprometer a produção.
Muhammad Khan, autoridade distrital de Kunri, estima que até um terço da produção seja perdido nas etapas de secagem e processamento. “A secagem é o principal problema para os pequenos proprietários rurais por causa da névoa que surge à noite”, afirmou.
Os pequenos agricultores reivindicam há anos estruturas modernas para controlar a secagem. Muhammad Saleem, corretor de pimentas no mercado de Kunri, disse que promessas de um centro para essa finalidade não foram concretizadas.
Busca por alternativas
De acordo com Khan, os grandes proprietários conseguem absorver melhor os custos adicionais provocados pelas mudanças no clima. O governo de Sindh aprovou um novo mercado de pimentas em Kunri, com armazéns e espaços para leilões destinados a proteger a colheita.
A queda da produtividade, o encarecimento dos fertilizantes e os problemas persistentes de irrigação levaram agricultores a diversificar o plantio. Dars reservou 1,6 hectare para 800 pés de mamão, embora avalie que os eventos climáticos extremos possam ameaçar qualquer cultura.








