SÃO PAULO — Um estudo conduzido no Instituto Emílio Ribas identificou sinais de uma síndrome inflamatória em 24% dos portadores do vírus linfotrópico de células T humanas (HTLV-1) considerados assintomáticos. Os resultados foram publicados no periódico Expert Review of Anti-infective Therapy.
Os pesquisadores propõem classificar esses pacientes como portadores do distúrbio inflamatório múltiplo associado ao vírus, chamado HAMID. Eles não apresentam as doenças tradicionalmente relacionadas ao HTLV-1, mas têm sintomas e alterações inflamatórias em diferentes sistemas do organismo.
A pesquisa acompanhou, ao longo de dez anos, mais de 700 pacientes. As avaliações incluíram carga viral, exames clínicos, neurológicos, radiológicos e laboratoriais. Entre os participantes assintomáticos, 24% apresentaram manifestações inflamatórias e neurológicas que não atendiam aos critérios da mielopatia associada ao HTLV-1 (HAM).
Sintomas e acompanhamento
Entre as manifestações observadas estão dores nas articulações, uveíte, distúrbios geniturinários e problemas dermatológicos. Para os autores, o quadro pode representar uma fase inicial da HAM, doença inflamatória crônica causada pela desmielinização da medula espinhal e associada a paralisias e alterações neurológicas.
“É uma proposta de nova entidade clínica caracterizada pela presença de uma inflamação múltipla, em vários sistemas”, explica Augusto Penalva, neurologista do Einstein Hospital Israelita e pesquisador do Emílio Ribas.
O enquadramento na nova condição exigiria alta carga proviral e sintomas clínicos e neurológicos que não alcançassem a definição de HAM. O reconhecimento poderia orientar o acompanhamento e o tratamento da inflamação.
O HTLV-1 pode permanecer no organismo durante décadas. A transmissão ocorre da mãe para o filho, principalmente pelo aleitamento materno, além de relações sexuais desprotegidas e compartilhamento de seringas e agulhas. Não há tratamento que elimine o vírus, mas suas manifestações e complicações podem ser tratadas.
Cerca de 90% dos infectados não desenvolvem as principais doenças associadas ao vírus. Outros 5% apresentam HAM, enquanto 5% desenvolvem leucemias e linfomas. Estima-se que 10% dos cinco a 10 milhões de infectados no mundo vivam no Brasil.








