Municípios classificados pelo governo federal como suscetíveis a enxurradas e inundações receberam 68% menos recursos por habitante para investimentos em infraestrutura verde e resiliência ambiental em 2025. Foram R$ 64 por morador nessas cidades, contra R$ 197 nos demais municípios que contrataram operações de crédito nessas categorias.
O levantamento considerou 17 municípios suscetíveis, que registraram R$ 406,3 milhões em operações de crédito. Outros 28 municípios movimentaram R$ 292,2 milhões. A diferença aparece porque a população dos dois grupos é diferente.
Quando o saneamento é incluído, os municípios suscetíveis somaram R$ 1,59 bilhão em operações, contra R$ 796,5 milhões nos demais. Por habitante, os valores foram de R$ 122 e R$ 265, respectivamente, uma diferença de cerca de 54%.
Nos gastos associados à Defesa Civil, a diferença também foi registrada: R$ 11,88 por habitante nos municípios suscetíveis, contra R$ 20,89 nos demais, ou 43% a menos.
O caso de Unaí
Em Unaí (MG), moradores convivem há 20 anos com alagamentos provocados pelo transbordamento do Rio Preto. Rosemari Peres Barbosa, de 48 anos, perdeu móveis, alimentos e a primeira casa que construiu no terreno, em 2006. Durante uma reconstrução, precisou morar com a família em um barraco de plástico.
A prefeitura contratou financiamento do Banco do Brasil para construir uma rede de drenagem na região. O projeto prevê R$ 1,1 milhão para 1 km de rede de escoamento, que deverá conduzir ao Rio Preto a água que desce da serra. Em períodos de chuva, a água chega a 60 cm de altura e cobre até 200 metros da via.
O financiamento levou mais de 8 meses para ser estruturado, com estudos e autorização legislativa. “É quase 1 ano que a gente vem fazendo esse processo. Tem que ter paciência”, afirmou o secretário de Obras, José Lucas da Silva.
A situação fiscal da prefeitura ajudou na contratação. Unaí alcançou a Capag A, a melhor classificação atribuída pelo Tesouro Nacional. Em 2017, a dívida equivalia a 1,32% da arrecadação anual. Em 2022, o indicador havia caído para -30,1%, uma mudança de 31,4 pontos percentuais em 5 anos.
Dificuldade para estruturar projetos
Eduardo Djanikian, gerente de Sustentabilidade, Economia e Inovação da Abde, afirmou que há recursos reembolsáveis disponíveis, mas parte dos projetos não chega às instituições financeiras. Entre os obstáculos estão a falta de equipes técnicas e a baixa capacidade institucional de municípios menores.
A infraestrutura verde exige estudos para definir a solução, os materiais e a extensão da obra. Para ajudar as prefeituras, a Abde mapeia escritórios de projetos e avalia a reunião de várias demandas em uma única operação.
Entre 1991 e 2024, 5.097 dos 5.570 municípios brasileiros registraram ao menos um desastre relacionado à água, segundo levantamento de pesquisadores do Cemaden, USP e Inpe. No período, esses eventos deixaram 4.774 mortos, mais de 3 mil desaparecidos e afetaram diretamente 129,8 milhões de pessoas. Foram cerca de 60.000 ocorrências, com prejuízos superiores a R$ 740 bilhões.
Em Mato Grosso do Sul, o programa MS Ativo reúne demandas dos 79 municípios. Desde 2023, foram cerca de R$ 1,5 bilhão em projetos de infraestrutura, principalmente de pavimentação e drenagem.
Para Djanikian, o acesso às obras depende de quatro pontos: financiamento, capacitação técnica, demanda dos municípios e capacidade fiscal. “Adiar a prevenção não elimina o problema. Apenas desloca a conta”, afirmou.








