Ursula K. Le Guin encerrou sua carreira literária falando sobre a falta de novos romances e comparando essa fase à secura de um poço. Na entrevista de 2018, ela disse que não havia mais uma história se formando em sua consciência e classificou como estranha a sensação de parar de escrever.
O diálogo integra o livro “Ursula K. Le Guin: A Última Entrevista e Outras Conversas”, lançamento da editora Relicário. A obra reúne sete entrevistas feitas ao longo de décadas, incluindo conversas com o jornalista americano David Streitfeld entre 2015 a 2018. A série da editora deve incluir, futuramente, entrevistas com Toni Morrison e Octavia Butler.
Críticas a autores consagrados
Le Guin demonstrava pouca reverência por nomes celebrados da literatura. Sobre a frase de Liev Tolstói a respeito de famílias felizes e infelizes, reagiu: “Que coisa mais ridícula de se dizer”. Também chamou Gustave Flaubert, autor de “Madame Bovary”, de um modelo ruim para escritores e afirmou que Vladimir Nabokov, de “Lolita”, não significava nada para ela.
A autora ainda mudou de opinião sobre Philip K. Dick depois de reler “O Homem do Castelo Alto”. Para ela, o livro era desajeitado, e a forma como o escritor tratava as mulheres era ruim.
Nascida em 1929 nos Estados Unidos, Le Guin escreveu clássicos como “A Mão Esquerda da Escuridão”, de 1969, e “Os Despossuídos”, de 1974. Ao longo da carreira, enfrentou o fato de ser mulher em um ambiente que privilegiava homens e de atuar na ficção científica, gênero tratado como menos prestigiado.
Ela dizia que publicar como escritora de gênero significava escrever algo considerado fora da literatura. Também sugeria que alguns autores venciam prêmios por serem homens e por produzirem literatura séria, embora escrevessem pior. Entre eles, citou Don DeLillo, vencedor do National Book Award de 1985 sobre ela, que concorria com “Always Coming Home”.
Le Guin também ironizava perguntas amplas, como uma sobre sua relação com a tecnologia. A franqueza aparecia acompanhada de humor. Streitfeld escreveu que ela ria com frequência porque o mundo a divertia. Aos 88, a escritora resumiu sua idade como “dois infinitos, um sobre o outro”.








