São Paulo, Domingo, 20 de setembro de 2026
Dólar R$ 5,16 · Euro R$ 5,91 · Ibovespa 185.229 +0,00% São Paulo 18°C 18° / 24°
Mundo

A nova admiração de jovens chineses por Mao Tsé-tung

Vídeos, livros e debates online mostram como Mao voltou a ocupar espaço entre jovens chineses, em meio à desigualdade e à insegurança econômica.

A nova admiração de jovens chineses por Mao Tsé-tung
Foto: AFP

Jovens chineses voltaram a demonstrar forte interesse por Mao Tsé-tung, 50 anos após a morte do líder, em 9 de setembro de 1976. Na plataforma de vídeos Bilibili, buscas por Mao ou pelo apelido Professor exibem compilações de cenas de sua vida, com milhões de visualizações e dezenas de milhares de comentários.

A base do Bilibili é predominantemente jovem, com quase 60% dos usuários entre 18 e 24 anos. Os vídeos mostram Mao em diferentes fases, como a juventude, o período como comandante militar e a atuação nas relações da Guerra Fria entre China, Estados Unidos e União Soviética. Entre os comentários, aparecem elogios como Viva o grande homem.

Um símbolo reinterpretado

Mao liderou o Partido Comunista e a China desde a fundação da República Popular, em 1949, até sua morte, em 1976. Durante o período, comandou o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural, campanhas que alteraram a economia e a sociedade chinesas e provocaram milhões de mortes.

Hoje, parte dos jovens o enxerga por uma perspectiva diferente da narrativa ensinada às gerações anteriores. Em 1981, o Partido Comunista Chinês aprovou uma resolução que passou a equilibrar conquistas e erros de Mao, em uma avaliação resumida como 70% conquistas, 30% erros. Nos governos de Deng Xiaoping e Jiang Zemin, imagens do líder desapareceram gradualmente de espaços públicos.

A partir de 2019, o livro Obras Selecionadas de Mao Tsé-tung tornou-se a obra mais emprestada da Biblioteca da Universidade de Tsinghua, posição que manteve até 2025. O estudante Dong, de Nanjing, afirma que se emocionou ao assistir a um vídeo de duas jovens cantando diante de uma estátua de Mao em Changsha. “Ao vê-la, de repente me senti bastante emocionado”, disse.

O apelido Professor é associado a uma fala atribuída a Mao durante um encontro com o jornalista americano Edgar Snow, em 1970. Segundo esse relato, Mao teria rejeitado títulos usados para elogiá-lo e afirmado: “Só resta um... Professor, porque eu sempre fui um professor”.

Desigualdade e insegurança

Especialistas relacionam o interesse renovado por Mao a preocupações com a desigualdade de riqueza, o desemprego e a redução da mobilidade social. Florian Schneider, professor da Universidade de Leiden, afirma que muitos jovens se sentem deixados para trás pelo crescimento econômico e pelas reformas associadas a Deng Xiaoping.

A taxa de desemprego urbano entre jovens de 16 a 24 anos que não estudam chegou a 17,9% em julho de 2026, o maior nível desde a revisão da metodologia estatística três anos antes. No vocabulário dessa geração, 996 descreve jornadas das 9h às 21h, seis dias por semana. Também se difundiram as expressões ficar deitados e involução, ligadas à passividade e ao esforço crescente para permanecer no mesmo lugar.

Nesse cenário, críticas de Mao ao capitalismo encontram eco entre alguns jovens. Schneider afirma que suas ideias são usadas para expressar insatisfação com o que alguns consideram a captura do Estado pelo capital e para interpretar contradições da vida cotidiana.

A avaliação oficial do Partido Comunista continua baseada na resolução de 1981. Já a terceira resolução histórica do partido, aprovada em 2021, coloca o grande rejuvenescimento da nação chinesa no centro da narrativa nacional. Mao aparece, assim, como uma das origens da ideia de que a China se ergueu, conquistou independência e criou as bases para seu rejuvenescimento.

Schneider avalia que políticas educacionais ajudaram a preservar uma imagem de Mao como herói inquestionável, enquanto parte dos jovens desconhece ou compreende de forma distorcida os efeitos do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural.

Dong diz que pode discutir Mao abertamente, mas evita falar do atual líder chinês, Xi Jinping. Um estudo do Instituto Mercator para Estudos da China aponta que a censura e a autocensura limitam debates sobre os níveis mais altos da liderança. Para Schneider, a admiração por Mao tem energia política e pode ultrapassar a cultura da internet, embora ainda não esteja definido se dará origem a uma identidade política mais duradoura.

Texto produzido pela Redação Janela do Fato com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

NewsletterCinco leituras por manhã.

Mais lidos

  1. 1
  2. 2
  3. 3
  4. 4
  5. 5