Empresas brasileiras mantiveram o desempenho operacional no segundo trimestre de 2026, mas o custo elevado das dívidas reduziu a conversão desse resultado em lucro líquido. A Selic encerrou junho em 14,25% ao ano, pressionando principalmente companhias endividadas, dependentes do mercado doméstico ou expostas a obrigações atreladas aos juros.
O resultado operacional cresceu quase 25% no conjunto de empresas analisado pela consultoria Elos Ayta, enquanto o lucro líquido avançou 3,9%. Para Einar Rivero, presidente da consultoria, despesas financeiras e a redução das receitas financeiras limitaram a transformação da atividade principal em lucro.
A dificuldade de repassar custos também afetou as margens. Empresas enfrentaram gastos maiores com crédito, insumos e logística, enquanto consumidores demonstraram resistência a reajustes. Companhias com dívidas em moeda estrangeira ainda ficaram sujeitas à variação cambial quando não tinham receitas em dólar ou proteção suficiente para compensar essas obrigações.
Setores e surpresas nos balanços
Petróleo, gás e combustíveis reuniram os principais destaques positivos nos relatórios de BTG Pactual, Itaú BBA, XP e BB Investimentos. Entre as produtoras, Petrobras e PRIO foram citadas; na distribuição, apareceram Vibra e Ultrapar. Os resultados foram relacionados ao aumento da produção e ao comportamento do petróleo tipo Brent.
O BTG Pactual e o BB Investimentos também apontaram sustentação do Ebitda em diferentes setores, sinalizando resistência da atividade principal mesmo quando o lucro líquido não acompanhou o desempenho operacional.
Os bancos divergiram na avaliação da temporada de balanços. O Itaú BBA registrou lucro acima das projeções em 44,8% das companhias cobertas. A XP encontrou proporção de 41%, mas classificou a temporada como fraca. Os percentuais não são diretamente comparáveis, porque as instituições acompanham grupos diferentes e usam metodologias próprias.
No conjunto de empresas do Ibovespa, o Citi calculou receita 1,8% acima da expectativa do mercado e lucro 5,3% superior às projeções. BTG Pactual e Itaú BBA também encontraram receitas acima do esperado, embora tenham identificado lucro em linha ou abaixo das estimativas em parte das companhias.
Ações e projeções
Mesmo com resultados agregados acima das previsões, as ações das empresas do Ibovespa caíram, em média, 1,3% após a divulgação dos balanços, segundo o Citi. O banco e a XP também destacaram a influência do fluxo de investidores estrangeiros, da atratividade do mercado americano e das incertezas em torno da eleição brasileira.
Para Felipe Sant'Anna, analista da Axia Investing, a Bolsa não reflete especificamente o cenário da economia real. Ele afirmou que a participação de capital estrangeiro deixa o mercado brasileiro mais vulnerável a decisões tomadas no exterior.
O Itaú BBA estima crescimento médio anual de 15% no lucro das empresas que acompanha entre 2025 e 2028. A projeção inclui avanço de 27,3% para companhias ligadas ao consumo doméstico e de 18,2% para bancos. A XP reduziu sua estimativa de lucro por ação em 2,8% para 2026 e em 0,9% para 2027.
A manutenção dos juros em níveis elevados pode preservar a distância entre o desempenho operacional e o lucro líquido. A evolução da taxa Selic e da atividade econômica será decisiva para os próximos resultados.








