O sistema previdenciário brasileiro registrou despesas superiores a R$ 1,03 trilhão em 2025, segundo o Tesouro Nacional. O valor equivale a cerca de 12% do PIB e reacendeu a discussão sobre mudanças nas regras de aposentadoria.
Renan Santos, candidato do Missão à Presidência da República, defendeu uma nova reforma caso seja eleito. Ele afirmou que, sem alterações, a Previdência deixará de garantir aposentadorias em três anos. Especialistas, porém, avaliam que os dados indicam deterioração fiscal, mas não comprovam uma interrupção do funcionamento do sistema nesse prazo.
Déficit e envelhecimento da população
No Regime Geral da Previdência Social (RGPS), voltado principalmente aos trabalhadores do setor privado, o déficit passou de R$ 145,7 bilhões em 2015 para R$ 320,9 bilhões em 2025, em valores corrigidos pela inflação. O Tesouro Nacional precisou destinar R$ 320,9 bilhões para fechar as contas do ano, R$ 7,1 bilhões acima do resultado de 2024.
A pressão sobre as contas também acompanha a mudança demográfica. O IBGE calcula que a expectativa de vida subiu de 71,1 anos em 2000 para 76,6 em 2024 e poderá superar 81 anos em 2050. Com a população vivendo mais, a duração média da aposentadoria por idade aumentou de 16,7 anos em 2020 para 18 anos em 2024.
As concessões de aposentadorias por idade e por tempo de contribuição também cresceram: foram 3,48 milhões em 2015 e 6,45 milhões em 2025. Projeções do Ministério da Previdência Social apontam que o número de aposentados dobrará nos próximos 30 anos, enquanto a quantidade de contribuintes ficará estagnada.
Diferenças entre regimes
No campo, a arrecadação cobriu apenas R$ 0,06 de cada real pago em aposentadorias rurais em 2025. Na área urbana, a proporção foi de R$ 0,91. O meio rural concentra 65% do déficit do INSS, e o trabalhador rural se aposenta cinco anos antes do urbano; entre as mulheres, a diferença chega a sete anos.
As aposentadorias do setor público federal também exigiram recursos adicionais. O governo repassou mais de R$ 62 bilhões em 2025, R$ 7 bilhões acima de 2024.
O reajuste real do salário mínimo amplia esse impacto porque mais de três em cada cinco benefícios urbanos e quase todos os rurais têm valor de até um salário mínimo. Fabio Giambiagi, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV Ibre), estima que o aumento anual de até 2,5% no número de aposentados, combinado ao ganho real do piso, pode elevar a folha previdenciária em até 4% ao ano, acima do crescimento potencial da economia.
Proposta em discussão
Economistas liderados por Paulo Tafner elaboraram uma proposta de emenda à Constituição com apoio de Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central. O objetivo é manter as despesas previdenciárias próximas de 10% do PIB até o fim do século. Sem mudanças, a estimativa é de que elas cheguem a 17% do PIB em 2100.
A proposta prevê idade mínima de 67 anos para homens e mulheres, tanto na cidade quanto no campo, além de reajuste automático vinculado à expectativa de sobrevida. Também estabelece bônus de 1,5 ano de contribuição por filho para as mães, limitado a cinco filhos, e carência mínima de 20 anos.
O texto ainda prevê a extensão das regras federais a estados e municípios e idade mínima de 55 anos para a transferência de militares das Forças Armadas à reserva. Jovens de até 24 anos entrariam em um modelo misto, com metade da contribuição destinada a contas individuais de capitalização e a outra parte mantida no regime de repartição. Trabalhadores acima de 50 anos continuariam no sistema atual. Os autores calculam economia de cerca de 2% do PIB ao ano.
A tramitação, contudo, enfrenta resistência política. Fabio Giambiagi afirma que o tema não é prioridade para governo ou oposição como era antes da reforma de 2019. Paulo Tafner avalia que a questão terá de ser enfrentada em algum momento, mas não há indicação de colapso do sistema em três anos.









