SÃO PAULO — O modelo de segurança associado ao presidente de El Salvador, Nayib Bukele, envolve detenções arbitrárias e em massa, restrições de direitos e concentração de poder, afirmou Carlos Dada, cofundador e diretor do jornal El Faro.
Dada disse que a política é apresentada no Brasil como referência contra o crime organizado, mas que a imagem da superprisão Cecot não representa a realidade da maioria dos detidos. A unidade tem ocupação de cerca de 60% e é mostrada com presos organizados, enquanto os demais são levados para outros 22 presídios, sem acesso de familiares, advogados ou jornalistas.
Em El Salvador, 1 em cada 50 cidadãos está preso. Dada afirmou que a aplicação desse índice no Brasil produziria uma população carcerária de 4 milhões de pessoas. O país tem pouco menos de 1 milhão de presos, atrás de EUA (1,8 milhão) e China (1,7 mi).
Prisões e direitos
Segundo o jornalista, policiais e militares podem deter pessoas sem ordem judicial ou acusação formal, bastando que sejam consideradas suspeitas. Em alguns registros analisados pelo El Faro, a justificativa para a detenção foi a pessoa ter “ficado nervosa”.
O regime de exceção está em seu quinto ano. Dada afirmou que muitos presos não têm ligação com gangues e que cerca de dois terços dos detidos seriam inocentes. Ele também relatou tortura sistemática nas prisões e mais de 400 mortes atribuídas a essas agressões.
Relatórios da Anistia Internacional e de um grupo de juristas independentes apontaram que o regime comete crimes contra a humanidade, conforme Dada. O jornalista também mencionou presos políticos, entre ativistas, defensores de direitos humanos e críticos do governo.
Pacto com gangues
Dada afirmou que o governo de Bukele manteve um pacto documentado com gangues para reduzir os homicídios e obter apoio eleitoral. O acordo teria começado quando Bukele era prefeito de San Salvador e terminado dois anos depois de sua chegada à Presidência.
A ruptura foi seguida pela morte de 87 pessoas em um fim de semana e pela entrada das forças de segurança no regime de exceção. O El Faro documentou a libertação ilegal de líderes de gangues condenados a 40 anos de prisão; alguns estão presos em Nova York, à espera de julgamento.
O jornalista deixou El Salvador após ameaças e ataques contra o jornalismo independente. Ele afirmou que Bukele o acusou de lavagem de dinheiro em rede nacional e que o El Faro foi acusado de sonegação de impostos. Para Dada, o governo também passou a perseguir defensores de direitos humanos e declarar críticos como inimigos públicos.
A concentração de poder incluiu a destituição de juízes da Suprema Corte e do procurador que investigava corrupção. Os substitutos foram nomeados na mesma sessão legislativa. Depois, a Corte reinterpretou a Constituição para permitir a reeleição presidencial.
Dada afirmou que não vê possibilidade de Bukele deixar o poder a curto prazo. O jornalista participou, em São Paulo, do Festival Piauí de Jornalismo e apresentou preocupação com a adoção do modelo por pré-candidatos brasileiros e com o interesse de parte do empresariado no sistema salvadorenho.








